A arquibancada de cada um

Às vezes eu me pergunto o que me faz tão corinthiano.

Ou o que me fez.

Porque o fato é que agora já sou mais um e pronto.

Só que as vezes tenho a impressão que o corinthiano está sempre em formação. É contínuo, portanto.

De qualquer forma, sinto que algo mudou desde o dia em que virei Fiel Torcedor – aquele programa de fidelização – como se o Corinthiano precisasse se fidelizar a qualquer coisa que não fosse o Corinthians.

Mas, para ir ao estádio, obrigado fui.

Na tarde de ontem, fiz a minha compra de número 51 no tal programa. Desde então, são 17 jogos por ano, apenas no Pacaembu.

E o engraçado é que estou na faixa de corte, exatamente. É que para a torcida do Corinthians, ir “só” a 17 jogos em um ano é um número relativamente baixo.

Porque o corinthiano vai e pronto.

Haja vista os recordes históricos de renda e público na série B, na segunda divisão. Amor não tem divisão.

Eu tenho sérias restrições com o programa Fiel Torcedor. De certa forma, ele facilita o acesso ao estádio de quem, como eu, pode pagar internet, tem cartão de crédito e compra ingressos de baciada assim que as vendas começam.

Só que afasta o povão do seu lugar de direito: a arquibancada.

Tenho saudade de quando o ingresso custava 10 reais e com “vintão” você ainda tomava uma cerveja e comia um pernil do lado de fora.

Foi assim que aprendi a ir ao estádio com meu pai. De última hora.

– “É domingo, filho. Pega tua camisa e vamos ver o Corinthians!”

Hoje isso não existe mais.

Existe a Fiel do Iphone, das mídias digitais, da internet… Todas do lado de dentro. E existe a Fiel do povo que, romanticamente, ainda “vê” o jogo pelo radinho, excluída pela inacessibilidade – seja financeira, digital…

Eu confesso que os melhores jogos que vi do Corinthians na vida foi pelo radinho.

Lembro-me até do meu último jogo que vi do Corinthians antes de virar Fiel Torcedor. Fui para o estádio e era um jogo bobo, desses sem importância. Íamos mal no Paulistão e estávamos na série B do Brasileiro. Era domingo.

Me vesti de Corinthians.

Busquei o Fernandinho e o Doug na rua de baixo, tomamos uma cerveja e fomos para o Pacaembu.

Não entramos.

Como era só um jogo bobo, não tinha mais ingresso. 35 mil Fiéis haviam comprado antes de nós…

Voltei para casa, abri outra cerveja, me loguei no site do Fiel e fiz meu cartão.

Agora estou aqui, 51 jogos depois, 4 finais no estádio, muito mais pobre e ainda mais corinthiano.

Perguntei no começo do texto: “O que me faz tão corinthiano?”

Não é o fato de ser um Fiel Torcedor. É o fato de ser um torcedor fiel.

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Tchelo Rodrigues assina a coluna “Glória e paixão” na Geral do Corinthians, todas às sextas-feiras.

Autor do post:
Tchelo Rodrigues

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1 Comentário

  • Ale SCCP

    Me identifiquei muito com seu texto, tanto por compartilhar essa ideia de que quem tem que estar ali no estádio, ou pelo menos na maior parte dele, é a camada mais humilde da sociedade e por ter exatamente 51 jogos comprados tambem. HAHA

    Não que as pessoas da classe mais rica não possam ir no estádio, só que na maioria das vezes são aqueles mais humildes os que cantam o tempo inteiro, e empurram o time, quem paga 500 reais quer ir pra ficar sentado, ou em camarote tomando champagne. Esse não é o perfil da nossa torcida e espero que isso não faça que com o tempo ela não se torne uma torcida comum.

    Ouvi já histórias de pessoas que compraram vários jogos do Paulista para acumularem e entrarem no corte pros jogos da Libertadores, e não irem nesses jogos que compraram os ingressos. Isso é muito errado, pelo menos na minha concepção, tiraram o lugar de alguem que poderia estar ali, apoiando de verdade o time.