História para meus netos

Era uma manhã de domingo como todas as outras, tinha acabado de tomar meu café e estava por fazer minha leitura matinal do jornal do dia, prontamente baixado no Tablet. Hoje, no ano de 2052, qualquer tipo de leitura em papel é considerado não só arcaica, mas também um crime. O meio ambiente era oficialmente preservado via legislação, sujeito a punições severas.

Meu neto corre pela casa todo feliz. Hoje ele irá à Arena Corinthians para ver uma final de Brasileiro pela primeira vez em sua vida. O campeonato foi difícil, como sempre, e será decidido hoje colocando, curiosamente na ultima rodada, frente a frente o vice líder Corinthians e o líder Botafogo. O clube do Rio montou um grande time e chegou nesta com a vantagem do empate para se tornar campeão brasileiro pela quarta vez em sua história. Já o Corinthians buscava seu décimo oitavo título fazendo uma campanha sólida e objetiva.

A TV estava ligada e uma reportagem chamou a atenção do meu neto. Era uma série de matérias sobre o aniversário da primeira vez que o Corinthians disputou uma final da Libertadores há longínquos 40 anos. O jogo em destaque era a semifinal contra o Santos de Neymar, ex-jogador que fez história na equipe santista e na seleção brasileira. Na mesma hora passou um filme na minha cabeça, lembrei como se fosse ontem o quanto foi difícil o Corinthians conquistar aquela vaga na final. Dirigi-me ao sofá, sentei ao lado do meu neto e tentei disfarçar uma lágrima que corria em meu rosto.

– O que foi vovô? Perguntou meu neto percebendo minha emoção.

Respondi que tinha muito claro em minha mente aquele jogo histórico contra o Santos. Para minha surpresa meu neto olhou bem nos meus olhos e disse para eu contar-lhe com detalhes como foi aquele dia. Seu semblante aparentava surpresa e curiosidade e percebi que não conseguiria enrolá-lo mediante a tanta expectativa.

– Quer saber mesmo? Então preste bem atenção! Foi assim:

Foi no dia 20/06/2012, estava trabalhando, dia corrido e cheio de atividades, porém a ansiedade para que o horário do jogo chegasse logo era grande. Não tinha conseguido comprar ingressos para aquela partida e estava conformado em ver o jogo no conforto da minha casa. Naquela época não jogávamos na Arena Corinthians, nosso estádio era o Pacaembu, que apesar de seu charme, não tinha a metade do conforto que o nosso tem hoje.

Fui almoçar com dois amigos, um corinthiano e outro santista. O jogo do dia obviamente era o assunto principal, e em meio à conversa este meu amigo corinthiano recebeu uma ligação. Em seguida ficou louco de felicidade, pois havia conseguido uma entrada no setor VIP do estádio por meio de uma emissora de Televisão. Foi aí que ele fez a proposta e me ofereceu seu ingresso de arquibancada para ir ao jogo. Não pensei duas vezes. Peguei o ingresso na hora e saímos felizes do almoço.

Automaticamente o dia passou mais devagar. Com ingresso na mão, minutos demoravam horas, mas o fim do dia chegou. Resolvi mais alguns problemas e às 18h25 corri para o estacionamento pegar meu carro e ir logo para casa. Mal entrei no veículo e já liguei o rádio para ouvir os preparativos. A ansiedade já estava triplamente maior e o coração batia cada vez mais forte.

Chegando em casa tirei a roupa de trabalho e me troquei muito rápido. Fiz um lanche mais rápido ainda, fucei um pouco na internet para saber mais informações do jogo e saí.

Eram 20h30. Morava no bairro da Mooca, relativamente bem próximo ao Pacaembu, e em 25 min já estava procurando vaga para estacionar. Não fosse o trânsito, teria chegado em 15. Deixei o carro um pouco distante, já que queria fugir dos flanelinhas, e me dirigi ao estádio ao som de fogos, ao meio de torcedores com a mesma esperança e tanta gente com o manto alvinegro indo na mesma direção, ônibus lotado passando pelas avenidas, ou seja, o clima para o jogo já estava estabelecido.

Chegando ao portão de entrada uma fila gigante, digna de jogo importante, nesta hora você nem pensa em falta de respeito com o torcedor, pois sua expectativa não deixa. Você quer mais é entrar. A falta de educação em furar a fila também teve de minha parte (não leve isso como exemplo), mas a desculpa foram dois amigos que encontrei, ajudando a ganhar alguns minutos antes de entrar no estádio.

Já nas arquibancadas o clima estava no auge. Torcida cantando, gritando, goleiros se aquecendo, vaias para a torcida rival e todos os cantos sendo ecoados no volume mais alto. Em questão de minutos o time do Corinthians apontou na boca do túnel e o estádio foi à loucura. Já era possível ver lágrimas dos mais exaltados e o jogo nem havia começado. E para aumentar a ansiedade, a equipe santista demorou a sair do vestiário, como se aquilo fosse abalar o esquadrão alvinegro.

Depois de alguns minutos de atraso, começou a partida. Nervosa, truncada, poucas chances de gol, algumas faltas… Este foi o ritmo do início, desenrolando para um jogo feio, porém, não menos emocionante. Quando estamos numa fase avançada de um torneio importante pouco importa se o time joga bonito, o resultado é o que interessa. Mas as coisas tomaram ares de drama quando o Santos abriu o placar. Ralf havia sofrido falta em uma cotovelada e o juiz mandou seguir. O Santos aproveitou o espaço na linha de fundo e em uma jogada eficiente a bola foi desviada por Borges, bateu na trave e Neymar completou de canela. O silêncio não foi sentido no Pacaembu, muito pelo contrário, os gritos aumentaram ainda mais e a certeza da luta da equipe em buscar o placar adverso era certa.

Começa o segundo tempo e o Tite entrou com Liedson para fortalecer o ataque, a esperança foi renovada e antes mesmo de iniciar a preocupação com uma possível decisão por pênaltis, Danilo com uma calma incrível, com uma tranquilidade baiana, mandou para as redes a bola sobrada da falta cobrada por Alex. O Pacaembu explodiu numa mistura de delírio e emoção. Não se ouvia mais nada. Os abraços em pessoas que nunca vi na vida eram constantes, a emoção da história sendo contada de uma maneira diferente inundava de lágrimas os olhos da Fiel Torcida.

Dali em diante, os 43 min seguintes foram de cantos pró Timão, de emoção e devoção à expectativa do término da partida. A equipe santista sentiu demais o baque e não produziu mais nada, dando a certeza de que o Corinthians sairia dali com a vaga merecidíssima na mão.

A partida foi chegando ao final, os cantos eram mais altos, praticamente não tinha mais jogo, até que o árbitro pediu a bola e levantou os braços encerrando uma partida histórica, onde pela primeira vez o Corinthians se credenciou a disputar uma final de Libertadores da América.

Só sei que ajoelhei na arquibancada e cai num choro de minutos...”

– Nossa vovô, que emocionante. Queria muito estar lá nesta época. Parece que antigamente o Corinthians sofria bastante para alcançar seus objetivos.

– É netinho, sofríamos demais. Por isso que até hoje a torcida canta que somos maloqueiros e sofredores, graças a Deus. E pra falar a verdade, gostávamos de sofrer. Sinto falta desta época em que nosso maior rival era o Palmeiras. Sabe aquele time que disputa a terceira divisão do Paulista? Ele já foi grande. Sinto falta das boas duplas de volantes que o Corinthians teve, como Vampeta e Rincón, Elias e Cristian, Paulinho e Ralf… Mas quem também se destacou neste ano foi o grande técnico Tite. Este tem um busto no Parque São Jorge pelo seu trabalho no Corinthians, fez história e mereceu este destaque pela diretoria anos depois.

– Nossa vovô, que legal. Que semifinal emocionante. Mas vovô me conta. Este jogo contra o Santos teve toda esta dramatização certo? Mas e a final contra o Boca, como foi?

Aaaah meu netinho!!! A final contra o Boca…? Quer mesmo saber? Vá tomar seu banho e se preparar para sairmos, pois esta final é uma história para ser contada outro dia…

E que história!

 

 

CORINTHIANS GRANDE!!

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Autor do post:
Julio Cesar

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