Devolvam nossa diversão

Foto: Washington Alves / VIPCOMM

E aí, tudo azul?

Como eu sou muito amigo de vocês, vou anunciar em primeira mão a bomba que o Jaeci irá anunciar nessa sexta no Alterosa no Ataque. É a cartilha que a BWA irá impor aos torcedores já a partir do jogo de sábado contra o São Paulo. Vou transcrevê-la e depois comento tudo com detalhes.

Art. 1º – É proibido chamar são-paulino de bambi, homossexual ou gritar qualquer canto que ironize a torcida adversária.

Art. 2º – É proibido entrar no Independência usando camisas do Cruzeiro ou do São Paulo – ou de organizadas –, bermudas, chinelos, óculos escuros, bonés, óculos de grau, lentes de contato, tênis, agasalhos, calças de ginástica, relógios – vai que você consegue informar aos jogadores quanto tempo ainda tem de jogo –, crocs – isso aí tinha que ser proibido em qualquer lugar –, calças jeans, pochete e qualquer vestimenta que não seja a citada no parágrafo único deste artigo.

PARÁGRAFO ÚNICO: O traje para os eventos esportivos na Arena Independência será passeio completo, ficando vedado o uso de qualquer lente corretiva para enxergar melhor a partida.

Art. 3º – É proibido dizer palavrões dentro do estádio. Quem xingar o juiz, o bandeirinha ou qualquer jogador que esteja errando todos os passes será convidado a se retirar do estádio.

PARÁGRAFO ÚNICO: Gestos obscenos também serão punidos com a expulsão do estádio. Torcedores que imitarem o inglês na Eurocopa ficarão banidos da Arena Independência para o resto da vida.

Art. 4º – Fica estabelecido o uso de bafômetros nas catracas para impedir que torcedores que estiverem com a taxa de álcool no sangue semelhante à Lei Seca entrem no estádio.

Art. 5º – Torcedores que tirarem meleca do nariz e colocarem embaixo das cadeiras serão multados. O mesmo vale para chicletes.

Art. 6º – É proibido ligar o placar eletrônico durante os jogos, estando os clubes obrigados a utilizarem letreiros com placas. Ajudem a fazer um planeta sustentável.

Art. 7º – Os jogadores não poderão mais utilizar chuteiras com travas, visto que tais instrumentos estragam o gramado do estádio.

Art. 8º – Cartazes de “Filma eu, Galvão” também estão proibidos.

Art. 9º – Apenas maiores de 90 anos, acompanhados dos pais, poderão assistir aos jogos na Arena Independência.

Art. 10º – Narradores que gritam muito estão impedidos de trabalhar em qualquer tipo de evento que ocorra na Arena Independência.

Tudo bem, sei que esses artigos são de mentira, todos vindos da minha timeline no Twitter e da minha imaginação fértil, mas é um absurdo proibirem bandeiras de bambu, caixotes de madeira e faixas grandes no estádio novo com a alegação que isso “prejudica a visibilidade dos torcedores”. Isso é algo que sempre pode ser resolvido com um “ABAIXA ESSA MERDA, SEU FILHO DA PUTA”. Além do mais, essa justificativa é a coisa mais idiota do planeta considerando que o estádio sofre com graves problemas de visibilidade.

Quanto à utilização do espaço com fins publicitários, quem tem que dar o veredito é o Governo de Minas, que foi quem financiou a obra. A BWA está administrando o estádio, não é dona de nada e após 20 anos terá que devolver o estádio ao América do jeito que estava quando foi entregue pelo Governo. E é importantíssimo que o Governo receba e autorize este patrocínio. Vai que aparece outro contrato surpresa e a Secopa é feita de boba que nem quem acreditou que o Theo Becker iria ficar até o final de A Fazenda 5.

Não vou retomar toda aquela discussão de Atlético/BWA, da dificuldade do Cruzeiro em conseguir jogar lá ou de como é absurdo alguém levar vantagem em um consórcio feito após um convênio de investimento público, que veda privilégios às partes. Vou focar apenas no estádio, que não é nada de primeiro mundo, como muitos tentam vender – como aqueles produtos que são anunciados na madrugada. Até porque nenhum estádio de “primeiro mundo” tem 20% dos lugares situados em pontos cegos. Enfim, essa discussão é longa!

Estive no Presidente Vargas em Fortaleza – estádio que pode ser comparado diretamente ao Independência, já que não é uma obra para a Copa do Mundo –, assistindo ao incrível duelo entre Ceará x Tiradentes – e não fiquei cego. E lá, mesmo após a reforma, não tem um décimo das frescuras do Independência. Tem um ano de uso e está tudo em ordem, tudo tranquilo, até porque o povo cearense é muito bacana.

Mas aqui em Belo Horizonte as coisas são bem diferentes. É como se o estádio do Horto fosse a nova Sandy, um templo sagrado e intocável. Escreveram uma coisa no muro e já virou matéria de todos os jornais da cidade, com mil críticas e choros – não defendo pichação, mas limpa o trem e acabou.

Na “Arena Independência” – que nome pomposo, tudo agora virou arena nesse país – eles verificam as pilhas do seu rádio, abrem só um portão para “controlar a multidão”, enfim, levam muito a sério essa questão de futebol moderno. Confesso que isso me incomoda muito, porque eu não vou ao estádio para ter conforto. Se eu quisesse conforto, ficava em casa vendo o pay-per-view com o meu pai, que se cansou de ir ao estádio, comprava uma grade de Antarctica Original e entrava para a Sofazeiros. Aposto que muitos dos nossos leitores, os que frequentam estádios há mais tempo, pensam parecido.

Quando meu pai começou a me levar ao estádio, isso no início/metade da década de 90, as coisas eram muito diferentes. Nós ficávamos na arquibancada inferior do Mineirão – vi uma foto dela sendo adequada aos novos padrões da Fifa e me cortou o coração que nem quando vi uma japonesinha linda numa balada beijando uma lésbica caminhoneira – porque ele não gostava de ficar perto das organizadas. Lá, ele comprava umas 5 ou 6 fichas de cerveja e bebia o jogo inteiro. Eu nunca bebi uma cerveja dentro de estádio, até porque a proibição de cervejas no estádio saiu quando tinha acabado de completar 18 anos.

Nós pegávamos aqueles cadernos de propaganda da Casa do Rádio ou da Arapuã e levávamos para não sujarmos as calças – ordens da minha mãe. Não tinha cadeira, não tinha telão, o ingresso era 5 ou 10 reais – eu não acho os valores atuais caros, já que a tia Dilma aumentou o salário mínimo – e éramos muito felizes. Não achava ruim o Mineirão antes do fechamento para a Copa, pelo contrário, as cadeiras até deram um clima legal e uma estrutura melhor, mas não tinha tanta papagaiada – só quando o Ministério Público inventava de proibir as organizadas de cantarem músicas que incitassem a violência ou tivessem palavrões.

Agora eu não sei o que vai nos esperar no estádio que sempre foi a nossa casa. Se o Independência, que era aquele estadiozinho acanhado no Horto está cheio de papagaiadas, o que dirá o Mineirão “Padrão Fifa”? É a mesma coisa daquela colega de escola que você nunca dava bola e agora ela se tornou a Gisele Bündchen da vizinhança, nem olhando para a sua cara após anos de desprezo da sua parte.

Muita gente, inclusive o meu próprio pai, falou comigo assim: Ah, Pedro, mas em muitos lugares da Europa não existem essas coisas. O pessoal vê o jogo sentado e no seu lugar marcado. Temos que nos acostumar com isso para a Copa.

Só que todo mundo se esquece que nós não somos europeus e eu não faço a menor questão de ser em um estádio de futebol. Se não puder agitar no estádio ou descontar os problemas da minha vida, os foras que eu levo na balada, a minha frustração de não trabalhar na Itatiaia ainda, as ex-namoradas de Recife que me dão pé na bunda, nunca ter ficado com uma asiática e a decepção de estar para os centroavantes como o Roberto Justus está para a música, fica muito difícil. Futebol assim vai ser a mesma coisa que ir à zona e pedir um abraço, como diz um grande amigo meu.

Não quero muito da administradora do estádio, só quero que ela seja racional, nos permitindo – isso serve para todas as torcidas, até para os cinco americanos que ainda insistem com o time – fazer uma festa bacana e com recursos visuais tão bonitos como a Juliana Paes atuando como a sensual Gabriela.

Nos vemos sábado no Independência para fazermos uma festa mais limitada, mas tão foda como a que fizemos contra o Figueirense, hein?

Vamos, Cruzeiro!

Autor do post:
Pedro Oliveira

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8 Comentários

  • Édem

    E a gente vê a festa que a torcida do Boca fez ontem … enquanto aqui tudo é “problema” de segurança e tal

  • Camila

    Aqui o povo é cheia de ‘não me toque’ mesmo. Ainda mais quando se trata do Cruzeiro. Ah, esse estadiozinho do Horto…

    • Pedro Oliveira

      Eu não curti muito o estádio, Camila. Estou contando os segundos para voltarmos ao Mineirão…Hehehehehehehe…

    • bernardomintira

      Essa é famosa elitização do futebol que está em progresso..
      get use to it.. é inevitavel essas frescuraiadas todas..
      sorte que sou um pouco vivido para ter aproveitado as coisas boas do mineirão…

      • Pedro Oliveira

        Pois é, Mintira…Agora vai ficar nessa frescuraiada…Pra vc ter ideia, nem tropeiro e espetinho vende no Independência. Como querem que eu consuma algo lá? Hahahahahaha…

        • bernardomintira

          Pra vc ter uma ideia… esse inicio de ano fui no engenhão FlaxFlu e fiquei, apesar de maravilhado com o estadio (estrutura), me decepcionei com a comida/consumo dentro do estadio. Pastel mal feito muito caro, e lanche do bobs se nao me engano, terrivel… cade aqueles tempos bons..
          sorte nossa que brasileiro é brasileiro.. fora do estadio foi sensacional… Comi espetinhos bons e baratos..bebi pra caralho…mta diversão…aquela bagunça legal.. agora..é curtir do lado de fora..e entrar so pra ver o jogo mesmo…

      • Douglas Willian

        Será que ainda podemos gritar gol? Palhaçada.