Uma pequena história radiofônica

Era sábado à noite e Zeca, um garoto de nove anos, estava na sala. O jogo do Cruzeiro passaria na TV. Bandeira estendida no sofá, vestido com a camisa da temporada, e a outra, a que dá sorte, uma manga longa de 2003, presente de batismo, estava em suas nas mãos. Dali, ele deu um grito:

– Pai, vai começar o jogo!

Seu Gumercindo, um senhor de idade, apegado aos velhos costumes, respondeu do fundo da casa:

– Assiste aí, meu filho. Você sabe que eu não gosto de jogo pela televisão.
– Poxa, pai, mas é o Cruzeiro na TV. Vem cá assistir comigo. Tá tocando o hino, ó.
– Não, Zeca. Vou ficar por aqui mesmo…

O narrador mal começou a escalar o time e PLUFT! Tudo apagou de repente. Zeca ficou sem entender direito. Deu uma olhada pela janela e a rua inteira estava escura.

– Paaaaaaaai, o que houve?

Seu Gumercindo chegou na porta, olhou para os lados e disse:

– Como o que houve? Mais uma vez acabou a luz, uai. Já é a quarta vez esse mês. Vou ligar lá na prefeitura amanhã cedinho pra reclamar.
– Tá, mas e o jogo? Como que eu vou saber do jogo? Ia passar na TV. Tava tudo pronto aqui!
– Calma… Vamo lá pro quintal. Deixa eu te mostrar como eu assisto aos jogos.

Iluminados por uma vela, os dois foram para o “Escritório” do pai. Uma salinha cheia de ferramentas de marcenaria que Seu Gumercindo usava todos os dias, mesmo após ter se aposentado. Ao chegar, Zeca se deparou com uma caixa de madeira velha em cima da pequena mesa. Já havia passado algumas vezes por aquilo, mas nunca prestou atenção. Era um aparelho estranho, cheio de botões e números, que ecoava em meio a chiados algumas falas confusas e um homem gritando.

– Mas que trabuco é esse? – Zeca perguntou.
– Olha como fala. Esse rádio eu ganhei na minha formatura.
– Dá pra ver que é bem velho mesmo. Mas como que tá funcionando sem energia?
– Me respeite, garoto. Senão te chuto daqui e só vai ficar sabendo do placar amanhã. Ele é à pilha. Já ouviu falar em pilha? Ou achava que isso só servia pra fazer o controle da TV funcionar? E se assente logo porque o jogo já começou.

Um apito soou e o homem avisou a hora e o placar. Eram dez minutos e estava zero a zero. Enquanto isso, Zeca ainda procurava um lugar para sentar no meio daquelas tralhas. O narrador começou a falar mais alto. Seu Gumercindo fixou o olhar no nada de tal forma que Zeca começou a procurar o que o pai estava olhando.

– Toca na meia direita pro colombiano estreaaaaaante da noite Diego Arias. Ele despachou de lado de primeira pro Ceará, que pode cruzar, mandoooooou essa bola pra dentro da área, lá vem o Borges! DEEEEEEEEEEEEEEEERRRRUBAAAAAAAAAAADO É PEEEEEEEEEENALTI!

– Pênalti! – Seu Gumercindo pulou da cadeira, gritando.
– Han? O que houve? Pênalti? Pra quem? Pro Inter?
– Presta atenção, Zeca. Era o Cruzeiro no ataque. Tava ouvindo não, moleque? Pênalti no Borges.
– Ah é? PEEEEEEEEENALTI! Uhul! Vamo Cruzeiro! Quem vai cobrar? Montillo?
– O Borges. Escuta!

– Lá vai ele, pra assumir a artilharia do Cruzeiro ao lado de Wellington Paulista. Vai Borges! É pra fazer, garotinho! É agora! Borges na bola! Chutou! GOOOOOOOOOOOOOOLLLLL!!

– Gol? Foi gol? Goooooooooooooooll! – Zeca saiu correndo, gritando, e nem ouviu o homem da rádio dizer que o gol tinha sido anulado.
– Olha aí, pai. E o Seu Zé falando que a gente não ia vencer o Inter, hein! Um a Zero! Uhuuul! – Completou enquanto festejava.
– Cala a boca, menino. Deixa eu escutar! Parece que não valeu.
– Não valeu? Por que não valeu? Quem disse?
– Como assim quem disse? Você tá bêbado, moleque? O narrador quem disse, oras. Se você escutasse…
– Ah, mas nesse trem é muito confuso. Não consigo entender nada.
– É só parar de chiadeira e prestar atenção.

– Se invadiu, tem mesmo que voltar. Então vai lá de novo, Borges! Quem faz um, faz dois. Coloca essa pra dentro, garotinho! É agora! Bateu! FOOOOOOOOOOOOOOO…

Antes que o narrador terminasse, Zeca já tinha saído correndo de novo, gritando gol pra vizinhança inteira ouvir. Mas não foi isso que aconteceu.

-… OOOOOOOOOORAAA!! PRA FOOOOOOORA, BOOORGES!!

– Volta menino. Volta que nem foi gol. Ele perdeu. Chutou pra fora… – Disse Seu Gumercindo, irritado.
– Uaaaai… Mas o homem não tava gritando gol?
– Tava gritando fora.
– Mas se foi pra fora, por que ele gritou assim? Ele tá doido?
– Deixa eu explicar. – Disse Seu Gumercindo, tentando ficar mais calmo – É assim que o rádio funciona. Aqui, tudo é maior. Tudo é com mais emoção. Para com essa pulação e vem escutar do meu lado. Você vai ver como aquela coisa monótona da televisão perde de dez pra isso daqui.
– Sei não, hein pai… Sei não.

Apesar de desconfiado, Zeca diminuiu os pulos e começou a prestar atenção, mas às vezes ainda se confundia. Em uma hora, chegou a gritar gol com um arremesso lateral. Mesmo assim, começou a gostar daquela forma diferente de acompanhar o jogo.
Antes do fim do primeiro tempo, a energia já havia voltado. Mas adivinha se Zeca voltou para a televisão?

FIM

Galera, eu fiz essa historinha para introduzir o tema do meu artigo científico, que é sobre futebol no rádio. Então, se você gostou da história do Zeca e também gosta de rádio como o Seu Gumercindo, por favor, me ajude respondendo o questionário que segue. São poucas questões e vão me ajudar demais.

QUESTIONÁRIO AQUI

Um abraço a todos e que o Cruzeiro volte a vencer, porque tá difícil, viu!

Saudações Cruzeirenses!

Autor do post:
Altieres Losan

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