Voltamos para Belo Horizonte, mas (ainda) não estamos em casa

É muito estranho “estar em casa”, mas se sentir mais visitante que o adversário. (Foto: Denilton Dias/Vipcomm)

E aí, tudo azul?

Em seis jogos realizados no estádio do Horto Florestal, que pertence ao América – nunca nos esqueçamos disso -, o Cruzeiro tem o ápice de sua irregularidade ao ser mandante no Independência. São três derrotas e três vitórias. E a pergunta que fica é: O Independência é uma casa para o Cruzeiro ou somos apenas um visitante que está passando um tempo lá para voltarmos triunfantes ao Mineirão?

Não vi muitos jogos no Independência antigo. Fui a poucos do Cruzeiro – naquelas invenções de jogar lá em 2001 e 2002 – e, pela diversão, fui em um América x Brasil de Pelotas pela decisão da Série C de 2009, no jogo que definiria o acesso de um dos dois – o Brasil tem uma torcida foda, queria vê-la ao vivo e atendeu às minhas expectativas, já que vieram 1.100 torcedores naquele jogo.

Nos que fui do Cruzeiro, confesso que não me sentia muito em casa e não gostava. E isso vai da história do clube também, já que só conquistamos apenas um Campeonato Mineiro – o de 1959 – naquele estádio. Em todos os outros que conquistamos naquela época pré-Mineirão, de 1951 a 1964, foram ou no nosso finado estádio do Barro Preto ou como visitantes nos estádios do América e do Atlético.

Falando um pouco de mim, não me sinto muito confortável lá. É como jantar com a família da namorada na casa dela pela primeira vez, quando você conhece o pai, os irmãos catarrentos, a mãe, a avó, o avô, os cachorros e tem que comer tudo que é servido para não passar uma impressão ruim. Fico tão inquieto quanto o Tufão vendo a Carminha louca por “motivos desconhecidos”, mas aceitando resignado porque, até o final do ano, a nossa casa é o estádio do Horto Florestal.

Sendo bem sincero, preferia a Arena do Jacaré, porque era um lugar mais acolhedor, com um clima mais receptivo e divertido que o novo Independência – eu achava melhor que o velho Independência também. Não por ser exótica nem nada, mas porque é um estádio simpático e nos dava um clima de casa – nada que se compare ao Mineirão, óbvio. Isso pode ser por todo o martírio que passamos antes de começarmos a jogar lá, não sei.

A título de comparação, o Cruzeiro perdeu pela primeira vez no Independência na segunda partida realizada em tal estádio. Já na Arena do Jacaré, o Cruzeiro foi perder apenas em 2011, no primeiro clássico contra o Atlético naquele ano, o que não foi nenhum absurdo, já que o estádio era a casa dos dois.

Ignorando os problemas do time em si, vimos muitos erros de passes nos dois primeiros jogos realizados no Independência por essa “falta de costume”. Tomamos uma pressão desnecessária do péssimo Figueirense, perdemos um jogo no contra-ataque para um bom São Paulo, não entramos em campo contra um Grêmio bem armado, ganhamos na vontade contra um bagunçado Flamengo, jogamos muito bem contra um Palmeiras quebrado e fomos bizarros contra a fraca Ponte Preta. Um retrospecto nada animador como mandante e onde perdemos alguns pontos – principalmente contra a Ponte – que podem fazer muita falta no futuro.

Claro, nestes jogos após o retorno à Belo Horizonte, a torcida anda bem impaciente. Muitos se esquecem de que tínhamos um grande risco de rebaixamento antes da competição e hoje estamos em sexto lugar, com um time que está se acertando durante a competição. Não vou discutir os erros da diretoria e a qualidade de certos jogadores em um texto no qual falo do estádio onde estamos jogando, mas vamos ter mais paciência e apoiar, né? Estávamos bem piores em muitos jogos na Arena do Jacaré e a torcida era bem mais paciente no estádio.

Mas o problema não é a torcida – muito pelo contrário, é a solução -, o problema é que o Independência é um lugar bem estranho para o Cruzeiro. Primeiro por não poder treinar lá habitualmente. Foi uma luta para conseguir um mísero treino antes do jogo contra o Figueirense – o primeiro – e, por normas da BWA, não há a insistência para a realização de mais treinamentos no estádio, o que seria bom para os jogadores.

Outro problema é a péssima qualidade em que se encontra o gramado. Claro, em algumas semanas estão realizando jogos praticamente de dois em dois dias. Por exemplo, se o América joga na terça como mandante, o Atlético na quinta, o Cruzeiro no sábado e o América volta a jogar lá na outra terça, o maior “descanso” do gramado ocorre entre o jogo do do Cruzeiro no sábado e o jogo do América na terça seguinte. Mas isso deveria ter sido pensado quando estavam reformando o estádio, em prepararem melhor a grama para a pesada carga de jogos, já que ali seria “a nova casa do futebol mineiro”.

Só que esses são os menores problemas. O maior problema de todos é como a BWA administra o estádio, limitando a festa dos torcedores e impondo medidas absurdas ao torcedor. Fora que nem um mísero tropeiro vende naquele estádio. A questão dos pontos-cegos não é revista nem por decreto. Só querem ter lucros no estádio e que se danem todos os torcedores. Tudo graças à lógica de obter sempre o máximo de lucros com o mínimo de investimentos possível. Esse tal de capitalismo é uma merda. Volta, Karl Marx!

Claro que lá tem muitos pontos positivos. É de fácil acesso, é moderno, tem uma acústica excelente, tem uma estrutura de banheiros excelente, tem bares organizados – apesar que eu preferia os bares do antigo Mineirão – e claro, é em Belo Horizonte – fato que aumenta o público no estádio e permite uma ampliação no programa de sócios. A nossa peregrinação pelo interior de Minas Gerais acabou e isso é o mais importante. A torcida que está lá é a torcida que sempre esteve junto com o Cruzeiro, mesmo que muitos desses continuassem indo à Arena do Jacaré todo santo jogo, houvesse chuva, sol, terremoto, tempestade e o que mais fosse. Me orgulho de ter ido a honrosos 25 jogos na querida Sete Lagoas.

Só fiz todos esses questionamentos porque me parece que a diretoria do Cruzeiro tem a mesma urgência em voltar ao Mineirão que eu. Estamos em Belo Horizonte, mas ainda não estamos em casa.

Independente de tudo, vamos apoiar e conquistar mais uma vitória contra o Fluminense no Independência. Nos vemos lá amanhã!

Vamos, Cruzeiro!

Autor do post:
Pedro Oliveira

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5 Comentários

  • Claudio Justo

    Ah, Pedro… Concordo quando diz que ainda não estamos em casa. Também não me sinto e nem nunca me senti à vontade naquelas arquibancadas do estádio do Horto. Mas acho que associar o desempenho do time a esses fatores não representa a realidade. O fato é que o time está oscilando muito devido à falta de planejamento. Sequencia de erros da diretoria anterior e a atual. Com o time sendo formado durante o campeonato fica “demais” exigir uma regularidade do time. E isso você menciona com perfeição no texto. O resto, sem desmerecer seu texto – do qual sou, aliás, fã -, acho que é balela.

    Atribuir à falta de um costume com um estádio ou às dimensões de um campo, é um argumento que se desfaz nas vitórias como visitante. Porque o time vence no campo do Bahia, que não conhece, e perde no Estádio do América, onde vem jogando? Não é por desconhecimento, mas por oscilações do time mesmo. Basta ver quem o time foi de 8 a 80 nos jogos contra Palmeiras e Ponte Preta.

    Fora isso, vale todas as críticas à BWA. E, claro, a leitura do texto sempre ágil e descontraído.

    Saudações!

    • Pedro Oliveira

      Muito obrigado pelos elogios, Cláudio. Mas assim, é o que eu falei em um parágrafo, não usei esse texto para discutir o time. Concordo com tudo o que você disse sobre o desempenho do time. Critiquei mais a falta de identidade do Independência com o Cruzeiro. Um abraço!

    • Bernardo Moreira

      Um ponto é estranhamente verdade.. a situação pior na Arena e a torcida não era tão chata e impaciente. Minha teoria é que esses chatos e bocoiós não são cruzeirenses o suficiente para deslocarem para 7 lagoas, restando só a nata da torcida e a galera que gosta e apoia. Agora que o estádio eh do lado de casa os chatos resolvem aparecer.

      belo texto..que o mineirão volte logo

    • Camila

      A torcida, por querer ver seu time de perto, era mais paciente com o time mesmo )-:
      O independência é tenso mesmo.