Entrevista com Alexandre, parte 2: “Ainda quero jogar no Santo André”
Entrevista feita por Vladimir Bianchini e Rafael Furlan. Colaboração de Marcelo Alves Bellotti.
Nessa segunda e última parte da entrevista, Alexandre fala sobre a Copa do Brasil, Libertadores da América e do seu atual momento.
E você imaginava que podia chegar tão longe na Copa do Brasil de 2004?
Tudo começou ali (na formação do time de 2003). Olha, não vou mentir pra você, a gente não imaginava chegar e conquistar a Copa do Brasil, que é um torneio muito difícil. Mas tinha que acontecer. Tanto é que no meio da Copa do Brasil o Santo André perdeu sete jogadores titulares, inclusive eu estava no meio, e trocou o treinador. Vieram outros jogadores que encaixaram e deram certo, é coisa que quando tem que acontecer não tem jeito, e foi a maior conquista do Santo André.
Foi um risco na minha carreira, mas eu precisava correr esse risco. Na época ninguém imaginava (que o time seria campeão da Copa do Brasil), até a diretoria, a comissão técnica Os jogadores acreditam que dá, mas é difícil. Na época eu tive propostas da Ponte Preta, do Criciúma e do Guarani, eram times que estavam num patamar maior. A Ponte Preta inclusive na Série A do Brasileiro, eu tava com 23 pra 24 anos, pensei “É agora, eu tenho que ir, é a chance da minha carreira”, outros jogadores também saíram. Fiquei de lá torcendo. Acabou a Copa do Brasil, duas semanas depois o time perdeu 12 pontos na Série B do Brasileiro, eu acabei voltando e nós conseguimos livrar o time do rebaixamento. Tanto a diretoria quanto os torcedores consideram que escapar daquele rebaixamento foi quase um título pro Santo André. (Se não tivesse perdido os 12 pontos) O time era sério candidato pra subir, com certeza ia brigar pra classificar.
Depois da Copa do Brasil, você recebeu alguma premiação?
Recebi medalha, camisa e fui na festa. Porque eu participei, joguei até o terceiro jogo, nós eliminamos o Atlético Mineiro no Mineirão. Eu fui pra Ponte, fiquei três meses, voltei pro Santo André e fiquei direto até novembro de 2005. Não renovaram o contrato, eu fui pro
Sport, fiquei três meses e acabei voltando pro Santo André.
Você imaginou algum dia disputar uma Libertadores pelo Santo André?
Não, não imaginei. Não desmerecendo o Santo André, um clube que não tenho nem o que falar, mas é difícil, você estar aqui e falar “vou disputar uma Libertadores”. Você tá num Palmeiras, você pensa em disputar a Libertadores, é um time que sempre chega. E depois que foi campeão (da Copa do Brasil) que caiu a ficha. Eu só acho que foi um pecado a gente não passar mais. A gente tinha condições de chegar até à final contra o São Paulo. Não perdemos pro Palmeiras… o que prejudicou a gente foi o empate contra o Cerro aqui e a derrota na estreia contra o Táchira lá. O nosso time era muito forte. Tinha o Romerito, Fumagalli, Richarlysson. Então esses jogos foram fundamentais pra gente ficar de fora, mas foi uma experiência excelente.
E qual a sensação de disputar uma Libertadores?
Disputar a Libertadores é muito bom, a arbitragem é diferente, não marcam faltas, o clima é diferente, meio que guerra mesmo. O jogo aqui contra o Cerro Porteño foi sensacional, contra o Táchira também. O jogo aqui contra o Cerro tinha seis, sete mil pessoas, um público legal. Jogo contra o Palmeiras lotado, lá no Parque Antarctica também. Contra o Cerro, no “La Ola” trinta mil pessoas, lotado, contra o Táchira lá também.
E como foi a série B depois da Libertadores?
Em 2005 fizemos uma boa Série B, só não subimos porque pegamos uma chave complicada. Santa Cruz, Grêmio e Avaí, saímos do quadrangular com 10 pontos, coisa difícil de acontecer. Em 2006 fizemos um bom campeonato. E aí foi um grande erro do Santo André no meu modo de ver: terminou 2006, era o Ruy Scarpino o treinador, tínhamos uma base boa, bons jogadores e o clube, não sei por qual motivo, não renovou com os jogadores mais experientes, e deixaram pra montar um time jovem, mais barato, pra começar em 2007 o Campeonato Paulista. E no Paulista não pode errar, tem que fazer um time de jogadores acostumados com a divisão. E foram querer montar o time na metade do campeonato. Eu cheguei na quarta rodada, sem fazer pré-temporada, sem nada. Aí foram trazer o Galeano, o Lima, que estavam parados, excelentes jogadores, mas no meio da competição. Pegamos uma chave complicada, cinco jogos dificílimos, cinco derrotas, aí não dava mais pra recuperar, o que culminou no rebaixamento.
Depois teve o sufoco da série B em 2007….
Aí teve aquela troca de diretoria, fizeram outro time, alguns ficaram. Eu ia sair, a diretoria não me queria, mas o Sérgio Soares falou “eu quero o Alexandre no time, eu o conheço”, acabei ficando. Tinha caído no Paulista, não podia ir mal na Série B. Começou o campeonato, o time não se encaixava mas era bom. Passamos o campeonato inteiro na zona de rebaixamento, pra escapar no final, não caímos. Em 2008, manteve a mesma base pra Série A2, era time pra Série A1. Conseguimos subir, na primeira fase atropelamos todo mundo, no quadrangular teve um pouquinho de dificuldade, mas subimos. Em 2009 eu saí.
Aí no fim de 2008 teve aquela disputa de vaga com o Cicinho? Você mudou de posição?
Eu vinha jogando, chegou o Cicinho e começou a jogar, mas eu sempre entrava, ou na direita ou na esquerda. No final do campeonato eu assumi a posição por umas doze rodadas, ele ficou como suplente. Começou em 2009 o Paulista, eu fiquei como titular, joguei quatro ou cinco rodadas e depois saí. Aí eu já estava praticamente fora do Santo André. Terminou o campeonato, fizeram uma lista dos jogadores que não iam participar do Brasileiro da Série A, eu tava no meio, e saí.
Você ficou chateado?
Não tem como não ficar. É um sonho, você está num clube há seis anos… Eu fui pra Ponte Preta, joguei seis jogos só no Brasileiro da Série A. Fui pro Guarani, joguei dois jogos. Então eu joguei a série A, mas não joguei daquele jeito, um jogo aqui outro ali, não é como você começar um campeonato pelo clube, ainda mais um Brasileiro. E eu vinha no Santo André pegando todos os acessos.
Eles falaram que foi opção do treinador, já foi. Mas eu fiquei chateado de não ter ficado. Era um sonho, eu estava com 30 anos, tinha totais condições de disputar e fazer um grande campeonato, eu tenho certeza. Aí eu comecei a rodar, fiquei 3 meses em casa treinando, depois no fim do ano acertei com o São José, depois com o União. Aí você fica rodando, pega um jogo aqui, outro ali. E peguei muito contrato curto. Na minha carreira no Santo André, acabava um contrato eu já assinada outro. Vários anos seguidos, sempre jogando direto.
Você sabe quantos jogos você disputou pelo Santo André?
Quase 300 jogos. Uns 270, 280, por aí. Na minha carreira, uns 70% foi feito aqui. Então não tem como não ficar chateado (com a não renovação do contrato). É coisa que eu não concordei no momento, mas a gente entende, às vezes é opção do treinador, clube não quer mais, você tem que respeitar e partir pra outra.
Depois você retornou para o Santo André?
Voltei mas fui emprestado ao Patrocinense. Fizemos um bom campeonato lá, subimos, com o Sandro Gaúcho, vários meninos da base. Acabou o campeonato, e eu não vim pra cá.
Qual foi sua última partida pelo Santo André?
Minha última partida foi contra o Barueri aqui, que nós ganhamos no último minuto, em 2009 pelo Paulista.
E dos jogos que você fez, qual marcou pela sua própria atuação?
Foram muitos jogos, então pra lembrar é difícil. Mas teve um jogo da Copa Estado de São Paulo, a final aqui, eu joguei na esquerda, e fui muito bem nesse jogo. O jogo contra o Atlético Mineiro (pela Copa do Brasil) foi um dos melhores da minha carreira. Depois do jogo, correram boatos de que o Atlético estaria interessado em mim. O jogo contra o São Caetano no Anacleto, em 2006, que nós escapamos do rebaixamento.
E os seus gols, você lembra de todos?
Tem o gol que eu fiz contra o Caxias, de cabeça, na série B. O Caxias caiu naquele ano, foi 4 a 1 (para o Santo André). Teve um gol contra o Guarani aqui, contra o Monte Azul, contra o Mogi Mirim… Contra o Atlético Sorocaba aqui, em 2005, foi um jogo especial, que eu fiz dois gols, nós ganhamos de 3 x 2. Na Copinha, fiz um gol contra o Comercial fora de casa..
Quais os técnicos com quem você mais se identificou no Santo André?
Tem vários, o Rotta, o Ferreira… O próprio Ferreira, que eu tenho uma história muito boa, ele é um treinador que pra todo lugar que foi ele me levou, tenho uma consideração e admiração muito grande. Teve muitos treinadores bons aqui. O próprio Sérgio Soares, o Ruy Scarpino, o Roberval, que ficou pouco tempo. O Fahel, que eu tenho uma amizade muito grande, eu gosto muito do estilo dele, e fizemos um bom trabalho aqui também. Quase todos. Mas eu destaco o Ferreira, não tem como destacar.
O que o Ferreira tem, que vários jogadores falam bem do trabalho dele? Dizem que além de ser motivador, ele tem bastante malandragem…
Ele sabe mexer, desestabilizar o adversário, é um treinador que briga muito pelo jogador, em termos de diretoria, ele pede, cobra bons contratos pro jogador, ajuda muito. E taticamente, foi o melhor treinador que eu peguei. Eu tenho como falar do Ferreira porque joguei muito tempo com ele, sou um dos jogadores que mais o conhece. Então eu posso falar, sem receio: às vezes ele se perdia um pouco nas substituições, talvez por isso que a carreira dele se atrapalhou um pouco. Mas em todos os outros sentidos, ele foi excelente: montagem de time, é um treinador ousado, sempre joga pra frente, nunca vi ele falar pra jogar fechado. Taticamente e tecnicamente, ele é perfeito. Muita coisa que eu sei sobre futebol eu aprendi com ele. Até sobre posicionamento de lateral, que hoje em dia você vê muita coisa errada, até em Série A, Série B.
Como assim?
Infelizmente, o futebol hoje em dia tá sendo levado muito pra parte física. Você tem que correr vinte mil quilômetros pra jogar futebol. É por isso que a qualidade técnica tá lá embaixo. O meu time hoje, do Ajax (que disputa a Copa Kaiser), é melhor que muito time profissional, que não tem fundamento, não tem posicionamento. Se o cara tá mal posicionado, ele pode correr o que for, que vai sair perdendo. Então eu agradeço muito ao Ferreira, que foi quem me ensinou muita coisa na parte tática. O próprio Dorival Junior, que foi um dos melhores treinadores que eu peguei, vem da escola do Ferreira. Foi auxiliar do Ferreira. A parte de treinamento dele era muito boa. Às vezes tinha jogador que achava cansativo, muito jogador que não gostava, porque era muito tático, muito técnico, mas precisa disso. E ganhamos muitos jogos por causa disso, posicionamento mesmo. Ajudou bastante na minha carreira.
E a torcida do Santo André? Você é um dos jogadores mais identificados com o Santo André. Como é essa relação?
Não tenho o que falar. Sempre fui muito bem tratado. É normal que em todo lugar tem um que não gosta de você, não vai com a sua cara, o seu estilo de jogo. Mas aqui sempre gostaram de mim, gostam até hoje, porque eu sempre fiz uma carreira muito boa aqui. Eu sou um jogador muito regular. O Dorival Junior falou uma vez: “ele é um jogador que dificilmente vai tirar 8,0 ou 9,0, mas jamais vai tirar menos que 6,0”. E eu concordo com isso. E minha carreira no Santo André foi assim, identificado com o clube. Muito tempo, você começa a gostar, é igual um casamento: depois de muito tempo com a sua esposa, você gosta dela. Mesmo que você separe, você tem seu filho, você tem alguma coisa.
Você ainda mora em Santo André?
Não, atualmente eu moro em São Bernardo. No tempo que eu jogava aqui, morava em Santo André. Mas como é perto, eu tô treinando aqui, deixo minha esposa no terminal e venho. Vou treinando, porque os times começam a contratar em novembro.
Jogaria de novo no Santo André?
Se houver interesse por parte do Santo André, eu não teria porque falar não. Seria um prazer acertar com o Santo André, sempre joguei aqui, e eu ainda quero jogar. Quero jogar mais uns três anos ainda. Mas infelizmente o futebol é visto de outra forma. Você tá com 33 anos, “ah, ele tá velho, ele não corre”. No meu modo de ver, não precisa correr tanto pra jogar futebol. Às vezes tem um jogador que corre demais, mas não é tão produtivo quanto um jogador que se posiciona melhor, que bate melhor na bola, que é mais decisivo, que tem uma visão de jogo, que fala bastante durante o jogo, orienta.
E como você está hoje?
Esses últimos dois anos, eu joguei três meses com contrato num lugar, depois fiquei parado, joguei mais três. Começa a desanimar, isso complica bastante, fisicamente e financeiramente. Porque não estamos falando de times de primeiro escalão, em que o cara joga três meses, mas ganha R$ 50 mil por mês. Num time de menor expressão, teoricamente você vai ganhar menos. Essas coisas me fizeram repensar a carreira. Tive essa oportunidade no Ajax, que financeiramente foi melhor que muitos times que você vê por aí, que jogam Copinha. Então eu tô jogando, me condicionando e me preparando. Minha intenção é jogar mais 3 anos, então estou treinando forte, pra em outubro ou novembro eu estar preparado pra entrar em alguma equipe.



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