Entrevista com o ídolo Alexandre – parte 1

Entrevista feita por Vladimir Bianchini e Rafael Furlan. Colaboração de Marcelo Alves Bellotti.

Alexandre Todoverto é um daqueles jogadores raros no futebol moderno. Sua identificação com o Santo André é enorme. Aos 33 anos (nascido no dia 22 de junho de 1978), é um dos maiores ídolos da história do clube, com aproximadamente 300 jogos e muitas glórias. Nesta entrevista ele revela suas alegrias e decepções com o futebol…

alexandre Entrevista com o ídolo Alexandre   parte 1

Alexandre no Estádio Bruno Daniel / Foto de Rafael Furlan

Fale sobre o começo da sua carreira.

Eu comecei a carreira no Nacional, da capital. No começo mesmo, eu passei pelo Palmeiras e pelo Corinthians nas categorias de base, e aí depois eu entrei no Nacional em 1997. Comecei a me destacar na série A-3 (do Campeonato Paulista) e depois subimos pra A-2. Depois passei pelo Santos e comecei a rodar por vários times.

E como foi sua chegada ao Santo André?

A chegada no Santo André foi em 2003, com o Ferreira. Ele tinha nos levado pra Marília onde subimos da série C pra B (do Campeonato Brasileiro de 2002). O normal era manter a base, mas eles não quiseram ficar com a gente. E nessa época veio tudo junto, eu, o Marcão, o Romerito e o Perdigão. Nós fizemos um bom Campeonato Paulista em 2003. Depois fomos campeões da Copinha (atual Copa Paulista) e também nós subimos pra série B do Brasileiro.

E nessa primeira passagem, qual o jogo que você mais destaca?

Em 2003 tem duas partidas. A final da Copinha aqui contra o Ituano, com o estádio cheio e o jogo do acesso pra série B contra o Campinense.  Esse jogo foi espetacular, dos bastidores tem história pra contar. Foi assim: perdemos aqui contra o Botafogo (da Paraíba) e tivemos que decidir lá, 35 mil pessoas, o Amigão lotado e tínhamos que vencer pra subir. Aí todo aquele clima, era matar ou morrer.  Eles tinham um time bom na época, o Rodrigo Tabata jogava lá. No começo eles fizeram 1 a 0. Aí deu aquela baqueada, 1 a 0 subia o Campinense, eles já tinham preparado festa, carro alegórico, trio elétrico, tudo. Aí foi fundamental o Ferreira. Ele conseguiu desestabilizar o time todo deles.

Como ele fez isso?

É coisa que só o Ferreira faz. O time deles começou a ficar nervoso, ele armou uma confusão. O Daniel conseguiu com uma discussão expulsar o Tabata que tava acabando com o jogo. A partir dali, o Ferreira aproveitou o momento e teve discussão com polícia, com o treinador deles, os jogadores.  Ele quase invadiu o campo, o time dos caras começou a desestabilizar totalmente e a gente começou a crescer. Ele armou o time certinho, fez as mudanças corretas, a gente virou o jogo e subiu lá. Foi um dos acessos mais inesperados do Santo André, tava tudo ao contrário e virou do nada.

Vamos falar mais daquela Série C de 2003. Como foi o jogo com o Cabofriense aqui, que foi pros pênaltis?

Foi difícil porque a gente ganhou lá, jogando bem, não teve dificuldade. Teoricamente, o jogo aqui seria mais fácil, então o time, querendo ou não, ficou com um pouquinho de salto alto. Fomos pros pênaltis e quase perdemos a classificação. Então foi um jogo que falamos “ganhamos lá, não teve dificuldade, aqui nós vamos passar por cima”. E hoje no futebol não tem bicho papão, você ganha um jogo, acha que vai atropelar o outro jogo e é surpreendido. Inclusive, foram esse jogo e o jogo do Bragantino os mais difíceis, que a gente podia ficar de fora. E o do Campinense, que foi aquele negócio de ter empatado com o Ituano, que teve toda aquela conversa de bastidores de resultados, pra prejudicar os times da Paraíba e nessa, o Ituano se saiu bem e no final a gente quase se complicou.

Como foi a batalha contra o Bragantino antes do quadrangular?

Contra o Bragantino foi espetacular também. A gente ganhou aqui de 4 a 1, foi pra lá e tava 3 a 0 pro Bragantino. Eu entrei no meio do jogo como volante. Eu fiz a jogada do gol do Daniel, que foi fundamental. No final do jogo eles tiveram uma bola no travessão que bateu na linha e saiu, os caras nos empurravam dentro da área e o juiz não dava falta, jogavam xixi no Martins, a gente tava no banco e eles jogaram muita coisa, foi fogo, ali foi luta mesmo.  Fiquei sabendo que a torcida teve do Santo André teve que sair correndo.

É verdade que passaram produtos químicos no vestiário e vocês não puderam aquecer?

Passaram um negócio lá, tava um cheiro muito forte. Mas a gente sabia que tinha que superar, infelizmente acontece essas coisas no futebol, mas nós fomos com tudo. Se a gente se entrega numa dessas, você perde o jogo. Então precisa esquecer, “ah, tão jogando xixi”, “a torcida tá batendo”, esquece. Tinha parente na torcida, foi isso que preocupou alguns jogadores.  E o Luiz falou quando a gente entrou no vestiário “gente, deixa eles fazerem o que for, a gente vai sair daqui classificado, é o mais importante pra gente”.

O ano de 2003 foi muito bom pro Santo André, que ganhou a Copinha, subiu na Série C e ganhou a Copa São Paulo de Juniores…

Foi excelente, eu digo assim: tudo que o Santo André conquistou depois, deve àquela base que formou em 2003. Tanto os jogadores que chegaram como eu, Dedimar, Julio Cesar, Da Guia, Careca, não eram jogadores tão experientes naquela época, mas já eram jogadores com uma passagem boa em alguns times. Eu tinha uns 23 ou 24 anos. Então os meninos que vieram muito fortes da Copa São Paulo, junto com o Rotta, nós fizemos um time sensacional na Copinha, vencemos onze jogos seguidos. Então pegou aquela base que tinha montado no Paulista, e eles conseguiram manter pro segundo semestre, pra Série C, junto com os meninos que tinham muita qualidade, fez uma base muito forte.

Como era a relação com aqueles jogadores da base? Não rolava um conflito de gerações?

Foi boa, os meninos eram todos gente boa. Eu particularmente nunca tive problema com jogadores mais novos, eles gostam de mim até hoje. Às vezes rolava (conflitos), mas coisas normais do dia a dia, uma discussão ou outra, mas no grupo todo mundo pensava o mesmo objetivo, querendo vencer e isso foi fundamental pro time.

Na Parte 2: Copa do Brasil de 2004 e Libertadores de 2005…

Autor do post:
Vladimir Bianchini

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