Relato de um dia inusitado: o tapetão e o não rebaixamento ramalhino visto dos bastidores

Texto de Rafael Furlan

 

Saí do Centro da cidade atrasado, em direção ao Estádio Bruno Daniel, onde deveria estar às 15h daquela quinta-feira. Havia combinado com o Vladimir de estarmos lá àquela hora para fazermos uma entrevista com o jogador e ídolo Alexandre, ex Ramalhão, atualmente sem clube e que tem treinado juntamente com o elenco andreense.

DSC 0016 620x411 Relato de um dia inusitado: o tapetão e o não rebaixamento ramalhino visto dos bastidoresCheguei no Brunão era quase 16h. Ao passar pela portaria do estádio, encontrei um torcedor amigo meu, e fui informado de que acabara o julgamento do Brasil de Pelotas no STJD, e o clube perdera 6 pontos na Série C. Com este resultado, o clube acabou virtualmente rebaixado à Série D de 2012, livrando assim o Ramalhão da degola.

Confesso que a notícia não me trouxe um estado profundo de alegria, pois esperava que meu time fosse capaz de escapar do rebaixamento por suas próprias forças. Mas, dada a situação catastrófica de rebaixamentos e fracassos consecutivos que tem assolado o Santo André, sou incapaz de negar que tal notícia chegou aos meus ouvidos trazendo alívio e a esperança de que esta conquista extra-campo se transforme em um freio para o elevador em queda livre em que meu time se encontra.

Encontrei o Vladimir e o Alexandre conversando no corredor entre a arquibancada e os vestiários. A entrevista já havia encerrado, e peguei somente um bate papo em off, bastante descontraído por sinal. O Alexandre se mostrou uma pessoa bastante receptiva, e o que para mim é o mais importante, demonstrou muita afinidade e simpatia pelo Ramalhão e seus torcedores. Tive a oportunidade de tirar uma fotografia ao lado do mito, o que para mim, sinceramente, valeu muito mais do que a conquista do não rebaixamento no tapetão.

Após a conversa, o Vladimir e eu subimos até o campo, onde rolava um rachão entre jogadores e alguns membros da comissão técnica. No caminho, o Vladimir foi me inteirando melhor das novidades: durante o julgamento, jogadores e comissão técnica se reuniram no vestiário para acompanhar a votação dos juízes. A cada parecer contrário ao Brasil de Pelotas, atletas de membros da comissão técnica gritavam e vibravam como se fosse um gol em final de Copa do Mundo. Quando foi encerrado o julgamento, o grupo saiu dos vestiários pulando, chutando e batucando tudo o que aparecia pela frente, visivelmente emocionados. Não dei muito crédito ao Vladimir, pois não acredito que alguém nesse time esteja realmente preocupado com essa situação. Deveria ter chegado mais cedo e conferido tudo pessoalmente.

Já no gramado, tivemos a oportunidade de conversar alguns instantes com o treinador Rotta e o assessor de imprensa Miguel Fagundes, enquanto seguia o rachão em metade do campo. Ouvimos o Rotta contar histórias de sua primeira atuação como treinador ramalhino, quando dirigiu o time de base que levantou o caneco na Copa São Paulo de Futebol Junior e dos Jogos Regionais. Durante a conversa, chegou um repórter de um importante jornal paulistano querendo entrevistar o Rotta sobre a luta contra o rebaixamento na última rodada. Foi o próprio Rotta que, com muito bom humor, anunciou ao rapaz o resultado do julgamento do STJD. A pauta agora teria de ser outra.

Na saída, encontramos ainda o lendário Esquerdinha, torcedor símbolo do Ramalhão, que horas antes se pendurava nos muros do estádio soltando fogos de artifício para comemorar a “conquista” do time. Junto com ele, outro ex-atleta andreense, o meio-campista Rodrigo Sá, atualmente sem clube e se recuperando de cirurgia. Sá contou que o Ramalhão tem ajudado muito em sua recuperação e que, inclusive, foi o próprio médico do clube quem realizou a cirurgia. O atleta não escondeu que gostaria de poder vestir mais uma vez o manto ramalhino quando recuperar sua condição física ideal. Comentou sobre outros ex-ramalhinos com quem mantem contato, como Denny e Tássio, crias da casa que hoje apresentam seu talento no insosso futebol de Malta. Segundo Sá, os atletas brasileiros são muito bem recebidos na ilha mediterrânea e seu futebol é muito bem visto por lá, embora os salários não sejam tão atraentes quanto na Europa Continental.

Desejamos sorte ao Rodrigo Sá, e fomos embora daquele lugar que, estranhamente, conseguiu viver um dia de felicidade em meio a tantas turbulências. Resta agora saber o que será do Santo André em 2012. Rotta permanecerá no comando da equipe? A administração do clube deixará o semi-amadorismo com que tem atuado? Encerraremos finalmente a sequência de tropeços? Daremos a volta por cima? Eu insisto em apostar no NÃO como resposta a essas inquietações ramalhinas, mas só me resta aguardar o tempo responder a tudo, enquanto torço para que eu esteja errado.

Autor do post:
Vladimir Bianchini

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