Torcedores andreenses resgatam suas raízes no aniversário do clube
Texto de Rafael Furlan
Este texto poderia ter sido escrito há duas semanas. A falta de identidade como torcedor me desmotivou a fazê-lo. Preferi postergar o ato de escrever, pois escrever sobre o que não se sente é um tanto constrangedor para mim.
No último dia 18 de setembro, o Esporte Clube Santo André completou 44 anos de existência. Sem muito o que comemorar, um grupo de cerca de 30 torcedores se reuniu para resgatar as raízes do nascimento do clube, no mesmo lugar em que foi celebrada, em 1967, a reunião que o fundou, à época sob o nome Santo André Futebol Clube. O evento, marcado para as 10 horas da manhã, viu os torcedores chegarem timidamente, um a um, como quem pisa em um território desconhecido.
Sob um sol de domingo opaco, os torcedores se encontraram na Praça 18 do Forte, embaixo do viaduto de mesmo nome, no centro de Santo André. No mesmo lugar, numa noite chuvosa de 18 de setembro em 1967, um grupo de pessoas ligadas ao futebol amador da cidade havia se reunido para tomar uma decisão que marcaria para sempre o rumo deste esporte dentro de Santo André. A chuva fez a energia elétrica acabar em toda a cidade, e houve quem tomasse o fato como um prenúncio das dificuldades que estariam por vir. De improviso, conseguiram-se alguns lampiões, que iluminaram a reunião. Já era tempo de uma cidade do porte de Santo André ter seu próprio time de futebol profissional, um representante da cidade e de seus cidadãos no esporte mais praticado e admirado pelos brasileiros. Assim nasceu o maior time de futebol do Grande ABC e, no meu coração, o maior do mundo.
De todas as turbulências enfrentadas pelo time, o que inclui a sua própria fundação, parece-me inegável que o período atual é o mais crítico de sua história: acumulando (supostas) dívidas, abandonado por boa parte dos torcedores e simpatizantes, desvinculado cada vez mais de sua origem popular, e já houve quem espalhasse boatos sobre um possível afastamento das atividades profissionais caso o time caísse para a série D do Brasileirão. Nesse contexto, o ato de comemoração de seu aniversário, por parte dos torcedores, soa como um abraço desesperado dos últimos de seus apaixonados, aqueles que não conseguem se desprender do símbolo que é este time.
O ato foi marcado por conversas que denotavam saudosismo, e críticas ao atual modelo de gestão do clube. Torcedores destacados, Dona Tosca, Decão e Seu Nelson foram homenageados. Algumas bandeiras tremularam, alguns rojões romperam o azul celeste sobre as cabeças dos andreenses, e alguns moradores de rua se uniram ao coro do hino ramalhino, entoado pelos torcedores. A imprensa local cobriu discretamente o evento, mais por dever moral do que por importância jornalística do fato. Como o evento foi numa manhã, não houve apagar de lampiões para avisar aos torcedores a hora de se dispersarem, e alguns permaneceram por lá, escavando lembranças, enquanto este que vos escreve subiu em direção ao Paço Municipal e se retirou para o conforto do lar, onde uma macarronada dominical fria e sem graça me aguardava.



"Você pensa que é bonito ser feio?" - Entrevista com Batoré, humorista e ex-jogador do Santo André
Entrevista com Alexandre, parte 2: "Ainda quero jogar no Santo André"
Do fundo do baú: o gol que valeu um carro
Entrevista com o ídolo Alexandre - parte 1 







