“Você pensa que é bonito ser feio?” – Entrevista com Batoré, humorista e ex-jogador do Santo André

Por Rafael Furlan e Vladimir Bianchini

A entrevista é com o humorista Ivanido Gomes Nogueira, ou simplesmente Batoré. Ele revela como foram seus dias como jogador profissional de futebol e como fim precoce de sau carreira nos gramados impulsionou seu sucesso na televisão.

batore1 Você pensa que é bonito ser feio?   Entrevista com Batoré, humorista e ex jogador do Santo André Batoré, você veio pra São Paulo pra jogar bola?

Eu vim pra São Paulo achando que era o paraíso aqui. No Nordeste a gente vive uma vida muito sofrida com a falta de chuva… tanto é que deu uma chuva mês passado lá e morreram quatro jacarés afogados. E a gente vem em busca de melhora de vida, questão de sobrevivência. Mas eu tinha aptidão pra jogar futebol, então aos 11 anos eu comecei a jogar nos clubes aqui de Mauá, nas equipes de base, na época era Dente, Dentão, Juvenil A, B e C. No São Paulo eu joguei, aí passei pelo SAAD, Santo André, Paulista de Jundiaí. Geralmente o caminho que o pobre procura, se ele tiver aptidão, é pra jogar futebol ou ser artista, e conseguir ajudar a família que geralmente é muito grande.

Qual foi a equipe que você mais jogou?

Foi no São Paulo, pelas equipes de base.

E como foi sua passagem pelo Santo André?

A primeira passagem pelo Santo André foi teste, lembro que foi no campo da GE, que tinha antigamente, onde hoje é o Parque Celso Daniel. Eu tinha passado também pela GM, que fazia investimento em futebol, que era uma forma de você ser registrado pela empresa pra disputar campeonato. Assim faziam a GM, a Alpargatas, que foram empresas que eu joguei também. Mas no Santo André eu passei lá, pelas mãos do seu Flávio, que foi zagueiro do SAAD, do Santo André. E no Santo André eu fiquei um ano e pouco, na época que inaugurou o Jaçatuba. E na época o Santo André tinha um time fenomenal, tinha o Tulica, o Fernandinho, o Arnaldinho que tinha subido do juvenil, peguei essa fase.

Do pessoal que jogou com você no Santo André, lembra de alguém que subiu pra categoria profissional?

O Paulinho, um loirinho, lateral direito. O Márcio, meia esquerda… inclusive esses dias eu procurei a carteirinha do Santo André e não achei, eu sempre guardo essas coisas. Parece que Deus fez uma varredura na minha vida e tirou todas as coisas de futebol de mim.

Você não tem mais nada, documentos, fotos?

Foto eu dou graças a Deus de não encontrar, porque eu sou muito feio, e naquela época eu era pior do que hoje. Eu não sei se a televisão fez as pessoas acostumarem comigo, mas eu já fui pior do que o que eu sou.

Dizem que a televisão deixa a gente bonito…

As pessoas que me veem na televisão pensam que eu sou feio… aí quando chegam perto têm certeza.

Você era lateral direito. Qual era sua característica como jogador?

Veja bem, eu sou feio, tenho consciência, mas eu sou esperto. Porque se além de feio eu for tonto, como que eu vou viver? Então na verdade eu jogava de lateral esquerdo sem ser canhoto, sou ambidestro. Por uma necessidade que eu via nessa posição, que pouquíssimas pessoas faziam teste. E todo time que eu ia fazer teste precisava de lateral esquerdo. Só que eu nunca fiquei em banco em time nenhum, porque eu jogava tanto na lateral esquerda quanto na direita. Tanto é que no Ituano, o time que eu joguei profissionalmente em 1981, eu era titular, por causa dessa versatilidade. E outra coisa: às vezes eu acabava não ficando nos times porque eu era visto como louco, eu apoiava muito. Minha posição de origem era ponta direita, aí no São Paulo como na lateral esquerda não tinha ninguém inscrito, eu me inscrevi e passei. Eu chutava, com uma de cada vez, com as duas pernas…

Senão caia, né?

Uma de cada vez! Mas imagina… um cara feio caindo, qualquer tombo é feio. E hoje, se o lateral não fizer o que eu fazia naquela época, não joga em time nenhum. Os laterais na época, quem eram? Zé Maria, Antenor, Getúlio, tudo trator. Na época, eu era um cara futurista e não sabia.

E naquela época você já era um cara engraçado, fazia brincadeira na concentração? Já podia ser humorista?

Tudo que é feio é engraçado. E eu sempre fui contador de piadas, o cara que chamava a atenção por contar piadas, ter raciocínio rápido pra fazer brincadeiras, improvisar… então já tinha essa preparação pro futuro. Então se não desse certo no futebol eu ia ter que escolher outra coisa, e a única coisa que eu não tinha coragem é de trabalhar.

Bator%C3%A9 piadas Você pensa que é bonito ser feio?   Entrevista com Batoré, humorista e ex jogador do Santo André Sua história no futebol é um pouco triste, o final da sua carreira foi abreviado por uma contusão, como foi isso?

Eu parei muito jovem, com 21 anos. Eu jogava no Ituano, na terceira divisão, e jogava na GM ao mesmo tempo. Na época, a terceira divisão, que hoje acho que é B-1 ou B-165, sei lá o quê, pagava muito pouco, então eu não treinava. Os times não tinham os investimentos que tem hoje, então a gente só ia pro jogo. Eu jogava, e era registrado na GM.

Num treino da GM, meu reserva me deu um carrinho por trás que me trincou os dois tornozelos, uma contusão inédita no futebol. Nessa época a Ponte Preta estava interessada em mim, mas saiu o comentário de que eu era um jogador baleado, o termo que se usava na época, um cara que não seria mais saudável. Hoje eu não sinto mais nada nos tornozelos.

Eu acho que foi um obstáculo que Deus colocou na minha vida, até porque eu nunca fui um excelente jogador. Era um polivalente, que treinava muito, batia bem com a esquerda ou a direita, batia bem faltas, tinha visão de lançamentos, mas era um jogador médio. Eu acho que Deus colocou esse obstáculo pra que eu mudasse a trajetória da minha vida. Fiquei 3 meses engessado da cintura pra baixo, parecia um carrinho de mão… carrinho de mão furado, tinha um buraco pra poder ir ao banheiro, um furo no assoalho.

Aí eu tive que aprender a andar de novo. Foi aonde eu comecei a assistir futebol na televisão, os programas do canal 2 com o Zanforlin, na TV Tupi com o Walter Abrahão.. E eu via os lances se repetirem em câmera lenta, em slowmotion. E eu criei um número de slowmotion e comecei a fazer apresentações em programas de calouros, foi onde eu mudei minha trajetória.

Tem alguma história curiosa pra contar do Santo André?

Nessa época tinha o seu Flávio, que era nosso técnico lá. E ele tem um pé que se não me engano é 53, e anda com a perna esquerda meio pra fora, é “quinze pras duas” que ele anda. Aí o pessoal comentava, e tal. Um dia, a gente se trocando pra jogar contra o Nacional da Água Branca, um menino comentou: “ô professor, é verdade que as mulheres não gostam de homem que tem o pé grande?”. E ele pra se engrandecer, disse: “você tem que pôr na cabeça que as mulheres sabem quando um homem é bem dotado pelo tamanho do pé”. Aí eu retruquei: “mas isso aí não vale não, porque o jumento tem um pé desse tamanhinho e redondo… e é um ignorante”. A turma rachou o bico, ele olhou pra mim com uma cara… Aí ficou aquela mania: “professor, esse sapato não é do senhor não”… ou olhava o pé dele e falava “ih, mentiroso…”.

E qual a melhor lembrança que você guarda do seu tempo no Santo André?

A lembrança é que na época o futebol era encarado com mais decência pelos torcedores. Você via o pai, a mãe, os filhos irem ao estádio, principalmente no Santo André, a família ia unida pro estádio de futebol, e hoje torcem pros times grandes. Eu sempre preguei o seguinte: o time número 1 do andreense tem que ser o Santo André. O número 2 pode ser Corinthians, São Paulo, Palmeiras, não importa. Mas o time número 1 é o da cidade dele, ele tem que ser bairrista, ele tem que defender a bandeira dele.

 

Autor do post:
Vladimir Bianchini

Deixe seu comentário

(Obrigatório)
(Obrigatório, Não será publicado)
Notificar por e-mail

2 Comentários

  • Marcelo Alves Bellotti

    Fantástico!!! Parabéns a você e ao Rafael Furlan… Muito bom!!! Divulguei no meu blog apenas uma parte, com o link para o seu… esse time é incrível e tem histórias deliciosas, como essa!!! A mensagem no final diz tudo o que eu penso “tem que ser bairrista, tem que defender a bandeira dele” Nossa bandeira é a bandeira da cidade, nosso mascote é o fundador da cidade… esse time nasceu do povo e deve ser devolvido a ele…

    • Jobel Mendes

      Eu nunca vi um ex:jogador não ter uma foto de recordação,joguei futebol profissional, na
      seleção de mauá,e não me lembro do Batoré.