Com Kevin morreu um pouco do meu amor

Sempre fui um defensor da ida aos estádios. Adoro o ambiente, a festa, o barulho, a torcida. Lembro muito claramente quando eu me apaixonei pela arquibancada. Foi numa tarde de domingo ensolarada de 96, no lado visitante do Couto Pereira, meu pai e eu, do alto da glória dos meus 9 anos, atrás de uma das traves. Trave essa, por sinal, que foi a baliza de todos os gols da vitória santista de virada por 3 a 1. Consigo ver claramente o Jamelli batendo o pênalti do empate, a cobrança de falta do Gustavo (que eu descobriria muito tempo depois que era o Nery) na virada, e a bola desviada do Zambiazi que sacramentou a vitória. Lembro de meu pai comprar lá minha primeira bandeira alvinegra, e de ganhar dois chaveiros de um membro da Torcida Jovem. Os chaveiros estão guardados, a bandeira preciso procurar, mas as memórias permanecem.

Passei a ir sempre que possível. Cada vez mais. E sempre chamava pessoas que nunca tinham ido a um estádio. Realmente acredito que todos os brasileiros deveriam ir a um estádio, ao menos uma vez, ao menos por experiência antropológica e social, ao menos para poder falar mal depois, ao menos para entender um pouco da minha paixão. Sempre me orgulhei de estar ao lado de vários amigos e parentes quando das respectivas estreias nas arquibancadas.

Pois bem. Quarta-feira, na Bolívia, um menino foi morto nas arquibancadas de um estádio. Menino mesmo, 14 anos. Vai saber se não era a primeira vez dele num estádio. Ou se já era frequentador assíduo, daqueles que ouve a mãe falando “se cuida” sabendo que não vai acontecer nada. Ou se só ia em jogos de Libertadores… Enfim, não importa. O que precisa ser dito é: uma criança morreu numa arquibancada de estádio. E isso tem que ser dito, ser repetido, ser gravado em todos os estádios do mundo, para que o absurdo não se torne banal. Uma criança, de 14 anos, morreu numa arquibancada de estádio. O lugar onde pessoas devem se divertir, se emocionar, vibrar, e também sofrer, mas daquele sofrimento que nós, torcedores, sabemos que vem apenas para tornar o êxtase mais gostoso.

Uma criança, de 14 anos, morreu numa arquibancada, vítima de um sinalizador. Ou um rojão, não sei. 

Sim, deve ter sido lançado pela torcida visitante. Mas não me interessa perder tempo apontando culpados. Afinal, culpados somos todos. É a torcida que lança o foguete, é o mandante que não fiscaliza, é a confederação que permite abusos e desmandos de dirigentes e não busca o desenvolvimento do futebol no continente, e somos nós, torcedores, que, ébrios de paixão, aceitamos passivamente tudo o que nos é imposto.

Mas isso tudo todos já sabemos. E tudo sempre foi assim, e continua como está. Mas quarta uma criança, de 14 anos, morreu na arquibancada, vítima de um sinalizador. Ou um rojão. E não de uma briga entre violentos torcedores uniformizados, barbárie essa com a qual, situação deprimente, já estamos acostumados. Não, não foi da “violência habitual”. O menino provavelmente estava com o pai, talvez insultando os adversários, talvez triste com o resultado, mas não envolvido em uma briga. E morreu.
Pensei em todas as pessoas que eu levei a um estádio. Homens e mulheres, amigos e parentes, com muita ou pouca insistência minha, não importa. De certo modo, todos confiaram no meu discernimento. Todos experimentaram a sensação de ver um jogo num estádio. E todos saíram vivos. Mas quarta, um corpo saiu carregado. Um menino, de 14 anos. Atingido por um sinalizador, ou um rojão. E saiu carregado de um estádio de futebol. Um lugar pelo qual eu sempre fui apaixonado. E para onde sempre levei meus amigos e parentes. Um lugar que, para mim, sempre foi sinônimo de festa, de vibração, de alegria. E agora, também de tragédia, que não é só da família, que não é só da Bolívia, que é de todos.
Acho que continuarei indo ao estádio. E talvez até convide mais pessoas para irem comigo. Mas ontem morreu um torcedor. Morreu um inocente. Morreu um menino, de 14 anos. Morreu uma criança. E também morreu um pouco da festa, da alegria, da vibração, da graça e da dignidade dos estádios de futebol. Morreu uma parte do meu amor pelo futebol.
Autor do post:
Danilo Hatori

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2 Comentários

  • Luís Tonelotto

    QUE TEXTO! PARABÉNS, INFELIZMENTE O MOMENTO É PÉSSIMO, ACHO QUE O AMOR DE TODOS OS AMANTES MORREU UM POUCO. POR ISSO SOU UM CORINTHIANO MUITO A FAVOR DA PUNIÇÃO QUE FOI FEITA, E SOU UM EDUCADOR MUITO A FAVOR DE UMA REEDUCAÇÃO TOTAL DAS TORCIDAS, DA UMA LIDA NO TEXTO EM MEU BLOG, TENHO CERTEZA QUE VAI GOSTAR, UM ABS, PARABÉNS

    • Nelson

      Cara, este seu texto esta emocionante e poético!!Muito bom, li umas tres vezes e me emocionei nas tres!!Parabéns!!