Minha primeira vez no Morumbi

Raí comemora o gol que eu não vi.

Era 27 de março de 1993. Eu tinha 10 anos. Havia passado pela Copa de 1986 apenas com a lembrança de souvenirs com sombreros e acompanhara a Copa de 1990 sem muito entender. Lembro mais do Kadett Turim e do meu livro do Pense Bem, com perguntas sobre a Copa.

Minha família não acompanhava muito futebol e acabava sendo influenciado pelos amigos. Na indecisão sobre “para quem torcer”, ficava entre Corinthians (que vinha de uma boa fase) e Santos (por influência da família). Mas havia algo pelo ar que me chamava a atenção.

Um time recém campeão do Mundo e com um elenco fantástico. A cor vermelha começava a tingir parte daquele coração, até então destinado a ser preto e branco.

Foi então que dois amigos, Leandro e Leonardo (não os cantores), me disseram que iriam ao Morumbi. O São Paulo enfrentaria o Sevilla, em um jogo amistoso. Empolgadíssimo com a idéia, conversei com o pai dos garotos que concordou em me levar, caso minha mãe deixasse. Depois de muito insistir, minha mãe me deu uma tonelada de recomendações e alguns Cruzeiros. Vesti uma camisa da Seleção e lá partimos então, em um FIAT 147 bege, para uma jornada incrível.

Lembro-me da sensação de estar, pela primeira vez, frente a frente com aquele gigante de pedra. As bandeiras tremulando e milhares de vozes cantando.

Com parte do dinheiro, comprei uma faixa que era vestimenta obrigatória naquela época. Nela lia-se “Raí, o Terror do Morumbi”.

Nos dirigimos à numerada vermelha. Fiquei observando encantado a tudo aquilo. Salvo engano, eram mais de 50 mil pessoas naquela tarde.

Mal sabia eu que havia um mostro sagrado do outro lado. Maradona, o próprio, vestia a 10 do Sevilla. Cada vez mais aquilo parecia fora da realidade. Era muito mais do que podia esperar.

O jogo começou e em certo momento Maradona tentou dominar uma bola com o braço. Eu, que provavelmente nunca havia acompanhado uma partida inteira, gritei: “Aqui não seu filho da puta!”, me referindo à Copa de 86. Não sei de onde saiu aquele grito. Mas ali realmente eu senti que estava em casa.

A bola rolava, Maradona de um lado, Raí do outro. Até que Palhinha recebe a bola. Vê Raí na corrida e lança. A torcida se levanta, um pipoqueiro entra na minha frente e o grito de GOL explode.

Minha primeira vez em um estádio e não vi o primeiro gol do jogo. A vontade era de ter empurrado o pipoqueiro numerada abaixo.

No segundo tempo, Raí fez mais um, de pênalti e fechou a conta.

Fui embora frustrado, por ter perdido o primeiro gol. Mas apaixonado com aquilo tudo que havia vivenciado. A faixa do Raí, virou parte do uniforme nas peladas do bairro. E o coração ganhou uma terceira cor e 5 pontas.

Autor do post:
André Chuahy

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