Na Geral – Entrevista com Claudinei Quirino

Claudinei Quirino da Silva nasceu em 19 de novembro de 1970 e se tornou um dos maiores nomes do atletismo de velocidade no país. Filho de pais pobres, morou em um orfanato até os dezessete anos. Quase caiu na marginalidade antes de descobrir o atletismo, quando ainda trabalhava num posto na beira da estrada. Claudinei é um dos ídolos que tive nas pistas. Um cara que, mais dia ou menos dia, ganharia o mundo. Problemas físicos o fizeram antecipar o seu momento de parar, mas uma surpresa estava reservada para um desses heróis do nosso país.  Oito anos depois de conquistar a medalha de prata no 4x100m, perdendo a corrida para o time americano, os atletas brasileiros receberam a notícia de que o corredor Tim Montgomery, da equipe vencedora, assumiu correr dopado. Assim, a medalha de ouro deve cair no colo dos brasileiros, numa justiça que tardou, mas não deve falhar. Um reconhecimento ainda maior (pequeno ainda perto do que eles merecem) para uma geração, agora literalmente, de ouro. Tive o prazer de conhecer Claudinei durante a caminhada e entre tantos papos, pude conhecer um pouco mais deste grande homem. Um cara de simplicidade ímpar e de um caráter maravilhoso. E que prometeu andar comigo na próxima aventura! Anota aí, Quirino, eu vou cobrar!

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Geraldinos: Como é a vida pós-atletismo profissional?

Claudinei Quirino: Uma vida de bastante trabalho…e de correr atrás do quero para a vida, depois do atletismo agora quero passar tudo que aprendi como atletas para os mais jovens (atletas).

G: Uma coisa que sempre me perguntei é: como um atleta que pratica um esporte não coletivo ou socializável, mata a sua vontade de voltar? Os jogadores de futebol, vôlei e basquete jogam “peladas”, golfistas, tenistas, nadadores e maratonistas podem sempre voltar a sua modalidade. E para corredores de velocidade, arremessadores de peso e dardo, saltadores com vara? Como matar a saudade do esporte?

CQ: Correndo… mas jogando futebol outro esporte que sou apaixonado sempre que posso jogo uma peladinha com amigos, aqui onde moro (mas confesso que sou ruim de bola rssr).

G: Como foi a sua despedida das pistas?

CQ: Foi um dia muito triste…chorei, pensei na vida pós-atletismo, mas achei meu espaço junto ao atletismo, pois nunca vou deixar meu esporte favorito, que é minha vida.

G: Do que você mais sente saudade?

CQ: Das competições. Adoro competir, mas sei que meu tempo passou e estou contente por ter passado por tudo isso.

G: Você foi uma das maiores esperanças do Brasil, teve resultados excepcionais e chegou longe como há muito o atletismo brasileiro não via. Depois de chegar tão perto do auge, você sofreu uma série de contusões e acabou encerrando a carreira. Como foi para você lidar com a queda de rendimento precoce?

CQ: Bom…muito difícil…por mim correria a vida toda, mas infelizmente todos nós ficamos velhos, e eu também fiquei. Aí pensei: é hora de parar. Foi muito triste, mas tinha que ser assim.

G: O ponto mais alto da sua carreira foi a prata em Sidney 2000 no revezamento 4×100. Agora, com a confissão do atleta americano, a prata pode virar ouro. Como você recebeu esta notícia?

CQ: Recebi com muita tristeza e alegria ao mesmo tempo.Que pena que essa vitoria demorou 8 anos para chegar, mas já que chegou seja bem vinda à minha vida, à minha história. rssrsr

G: Se tivesse a oportunidade de encontrar o atleta americano, o que você diria para ele?

CQ: Muito obrigado por sua sinceridade, você mudou a minha vida e dos meus companheiros de equipe. PARA VC NÃO FAZ FALTA UMA MEDALHA OLÍMPICA, MAS PARA NÓS FAZ A DIFERENÇA .

G: Ele fez a revelação por vontade própria. Esta atitude faz o público imaginar que muitos outros atletas podem correr dopados e que o sistema antidoping é fraco. O que é possível ser feito para evitar o doping?

CQ: Gostaria de responder algo, mas também não tenho respostas.

G: Já ofereceram a você que se dopasse para atingir marcas? Você conhece atletas que se dopam?

CQ: Bom, para mim nunca, mais já conheci atletas que foram pegos no exame anti-doping.

G: É possível hoje ser campeão olímpico sem doping?

CQ: Claro que sim, com talento e dedicação o atleta vai longe!!!

G: Vale tudo pela vitória?

CQ: Vale … treinar muito, se dedicar, ser responsável, ser leal, ser honesto sempre! Mesmo que isso não te leve a ser um campeão. O mais importante é ser campeão para si mesmo dentro do coração, sabendo que você lutou, deu tudo de si, e não conseguiu…mas sempre foi honesto.

G: Como é participar de uma Olimpíada?

CQ: Olimpíada é o sonho de todo atleta. Para mim foi a realização de uma vida de trabalhos duros.

G: Existe mesmo tanta azaração, tietagem entre atletas e amizade quanto se fala na mídia?

CQ: Ah sim, um clima bom! Claro que uns atletas têm maior afinidade com outros, mas há respeito, dentro e fora das pistas.

G: É um momento tão divertido quanto falam?

CQ: É um momento único, de rever amigos e adversários.

G: A “brincadeira” na vila olímpica não atrapalha o rendimento nas pistas?

CQ: Lá tem de tudo…mas depende de cada um, se você tem um foco e está determinado a fazer seu trabalho, nada te atrapalha.

G: Alguma vez a festa, diversão ou noitadas atrapalharam seu rendimento?

CQ: Não, porque eu quando estava em ritmo de treinamento e participando de competições importantes, eu ficava bem focado na minha responsabilidade de fazer o melhor.

G: Que país tem as “melhores” atletas?

CQ: Assim você me compromete, sou casado! hehehehehe

G: Como você avalia a sua carreira? Que nota, de 0 a 10, você daria para o atleta Claudinei Quirino e os seus resultados?

CQ: Nota 8.

G: Mudaria alguma coisa na sua trajetória?

CQ: Nadinha faria tudo de novo.

G: Você teve um começo diferente da média. Não era corredor de origem e foi descoberto (até que tardiamente) e fez muito sucesso. Como foi o início da sua carreira? Como tudo começou?

CQ: Bom de uma forma resumida comecei em Lençóis Paulista. Perto de lá, antes de ser atleta, trabalhava em uma lanchonete de um posto na beira da estrada e tinha um amigo que era forte e um dia eu perguntei o que ele fazia para ficar forte, e ele respondeu que fazia atletismo. Fui um dia com ele fiz um teste e ali já viram que eu tinha talento. Depois fui para Araçatuba onde treinei com o treinador Primo. Aí vim para Prudente treinar com o Jayme Netto, quando me destaquei e consegui chegar ao maior sonho de um atleta: as Olimpíadas.

G: Quem foram as pessoas que fizeram você se tornar quem é?

CQ: Olha, foram muitas pessoa que foram como anjos que me ajudarão muito, e me fizeram ser um campeão dentro e fora das pistas, seria muito injusto citar algumas pessoas e me esquecer de outras, mas quero agradecer a todos que fizeram parte da minha, meu muito obrigado.

G: Quem são seus ídolos?

CQ: Gosto do Rubinho Barrichello pela postura que tem principalmente pelas postura dele diante das críticas que recebe e para mim ele é um grande campeão, e o Rogério Ceni ( do meu são Paulo!).

G: O atletismo é um dos esportes com potencial para ser popular, mas não é. Por quê? O que é preciso fazer para divulgar e difundir o atletismo?

CQ: O atletismo hoje passa pela melhor fase, mas sempre foi o “primo pobre” do esporte, mas a gente não pode esquecer que o atletismo é a base para outras modalidades e não precisa de muita coisa p/ se praticar o material é um tênis, um short e começar a correr. Teria que ser um esporte ensinado nas aulas de educação física das escolas. Descobriríamos muitos novos talentos.

G: O que você mudaria no incentivo ao esporte? Apostaria em atletas de base, em atletas olímpicos, em projetos sociais?

CQ: Não mudaria nada, mas gostaria que as leis de incentivo ao esporte funcionassem com mais eficácia. Apostaria sim desde a base até ao alto nível, sem a base não temos atletas para renovação.

G: Você tem muita ligação com o esporte social. Qual a importância dá prática esportiva como inclusão social?

CQ: A importância é total. Primeiramente tirar muitas crianças e jovens da marginalidade, e dar a oportunidade de ensinar a uma criança a ser um campeão, no esporte e na vida. Gosto sempre de falar que esporte e educação caminham juntos.

G: Você tem projetos sociais ou ajuda alguma instituição? Como?

CQ: Não tenho. Mas sou colaborador de vários, também ministro palestras gratuitamente para crianças carentes e escolas na região onde moro.

G: Se no início da sua carreira, no primeiro ano, um patrocinador desse a você 10 milhões de reais. Como você investiria, como distribuiria este dinheiro entre seus compromissos, seu treinamento e desenvolvimento e também a ajuda aos outros?

CQ: Rsrsrssssr… Aqui no Brasil é difícil, mas se isso acontecesse, eu investiria em mim, mas ajudaria outros também.

Autor do post:
Rodrigo Ferreira

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3 Comentários

  • Fabim

    “Qual seu ídolo?
    Rubinho Barrichello”

    hehehehe, nunca achei que veria isso.

    Grande cara, uma pena não ter tido a chance de comemorar essa medalha de ouro no tempo certo. Receber pelo Sedex não é a mesma coisa, mas… o egoísmo de uns prejudica uma vida inteira de outros.

    • Ana

      Claudinei vc se lembra das corridas que eu dava em você?

      Se você não se lembra mais, eu era entiada do seu pai, irmã da sua irmã Claudete!!!

      • Cláudia Regina

        Gostei muito da sua história, já o havia visto antes, mas agora tive a oportunidade de conhecer a sua vida melhor. A escola que a minha filha estuda, escolheu o seu nome para a turma te homenagear. Achei ótimo. Gostaria que se você pudesse mandar um depoimento seu sobre sua vida, pois sou professora e estou na direção de uma escola pública, onde tem muitas crianças carentes. Iniciamos com um projeto de atletismo e o seu depoimento seria um incentivo para eles. Eles estão na faixa etária de 11 a 14 anos. Obrigada pela atenção. Cláudia