Na Geral – Entrevista com Jota Júnior

Vamos lá: quem, com a minha idade ou um pouco mais velho, ao falar de futebol não se lembra do eterno bordão: Bandeirantes, o canal do esporte, sigam as próximas linhas. E mais, aqueles que não ligavam a TV no domingo de manhã para ver o Show do Esporte, por favor prestem ainda mais atenção a esta entrevista.

Jota Júnior faz parte do imaginário de todo e qualquer fã do esporte com mais de 23 anos. Hoje no SporTv, Jota é, junto com Luciano do Valle, Silvio Luiz, Elias Jr., Gérson e tantos outros craques, um dos responsáveis pela divulgação e massificação do esporte no país.

Um dos melhores narradores do Brasil e dono de um blog,  concedeu prontamente a uma entrevista por email com uma simpatia sem precedentes. Um orgulho para os Geraldinos!

– – –

Geraldinos: Não é tão comum encontrar alguém que queira ser narrador. Você surgiu essa vontade? Qual sua formação e trajetória até os dias de hoje?

Jota Júnior: Desde pequeno eu me encantei pelas narrações de rádio (quando comecei, a televisão quase não transmitia futebol). Ouvia muito rádio e especialmente as transmissões do futebol.

Iniciei narrando em Americana (1969), depois Limeira, Campinas e São Paulo.

Em São Paulo foi à partir de 1976 na Gazeta, e ali tive as primeiras experiências na televisão.

Em 1980 fui para a Rádio Bandeirantes.

Em 1983 passei a narrar pela TV Bandeirantes, onde fiquei até janeiro de 99.

Estou no canal Sportv desde marco de 1999.

** Curiosamente não cursei faculdade de jornalismo, pois quando comecei ela ainda não existia. Me formei em Direito em 73, mas pouco trabalhei nessa profissão, pois passei a me dedicar totalmente ao rádio, jornal e depois a televisão.

G: Mudaria alguma coisa? Falta algo à sua formação?

JJ: Pequenas mudanças na narração a gente vai fazendo periodicamente. Mas sem desvirtuar o principal, que é a fidelidade às imagens e ao formato jornalístico do trabalho.

G: Como é possível inovar e se destacar como narrador?

JJ: Com a forca da imagem, acho difícil inovar nas narrações. Sou avesso a bordões, mas respeito quem se utiliza deles. Não gosto do narrador que aparece mais que o espetáculo. Ele é simplesmente um coadjuvante do espetáculo em si. Tem o seu valor, mas não pode ser mais importante que a imagem.

G: Como é ser mais conhecido pela sua voz do que pela sua imagem?

JJ: Na verdade, poucas são as pessoas que identificam os comunicadores corretamente. Normalmente somos confundidos com colegas, e vice-versa. Chega a ser engraçado. Não me incomoda o fato de ser mais conhecido pela voz. Gosto de cumprir o meu papel na transmissão, só isso.

G: Quais suas ambições profissionais?

JJ: Ambições já tive muitas, mas no momento quero apenas ser útil na máquina da empresa. Pretendo continuar com saúde para seguir trabalhando em algo que gosto muito.

G: Como você se definiria como profissional?

JJ: Me defino como um profissional que por onde passou foi útil às empresas. Não fiz nada brilhante, mas sempre com honestidade e correção.

G: Quem é o maior profissional com quem você já trabalhou? Quem o inspira a ser cada vez melhor?

JJ: Admiro muito os profissionais que além do talento, são humanos e sensíveis. Tive e tenho muitos colegas e amigos assim. Quem se deixa levar pela vaidade, normalmente não tem o espírito de grupo e não se relaciona bem com os demais. Sem citar nomes, mas no meu time apenas escalo pessoas de caráter.

G: Qual seu maior defeito e qualidade? Se pudesse se dar um conselho, o que diria?

JJ: Certamente tenho muitos defeitos como profissional, mas o maior deles é não gostar de fazer longas viagens. Já fiz muitas ao longo da carreira, mas várias vezes pedi para não ir, e certamente comprometi alguns esquemas e projetos.

G: Qual o maior erro que você já cometeu como jornalista (ideologicamente e/ou no dia-a-dia)?

JJ: Devo ter cometido um sem-número de equívocos. Errei muito, certamente. Mas tenho a qualidade de me preocupar muito com os erros e ser teimoso em procurar não mais cometê-los.

G: Qual sua maior vitória ou o que mais se orgulha de ter realizado na profissão?

JJ: Minha maior vitória talvez seja o de alcançar um estágio na carreira onde as pessoas muito me respeitam. Às vezes até me surpreendo com o respeito que as pessoas me dedicam. Isto é muito gratificante.

G: Qual o maior momento da sua carreira?

JJ: Meu maior momento na carreira talvez tenha sido a realização do sonho de trabalhar em São Paulo. Minha estréia no rádio paulistano foi cheia de emoção. Cheguei a um lugar onde almejei desde criança. E depois a minha primeira Copa do Mundo, na Argentina em 1978.

G: Qual sua maior decepção no esporte?

JJ: Foi a eliminação da seleção brasileira na Copa de 82, na Espanha. Eu estava trabalhando pela Bandeirantes nesse Mundial e aquela derrota para a Itália foi algo impressionantemente triste. O mundo chorou com aquela eliminação do time de Telê Santana.

G: Qual notícia ou fato do mundo esportivo você gostaria de ter narrado?

JJ: Talvez a final da Copa de 1958, pois eu tinha dez anos de idade e aquelas vozes do rádio me impressionaram demais. Aquela seleção brasileira era toda ela composta de meus primeiros ídolos no esporte. Se pudesse fazer o tempo voltar, eu me colocaria no estádio Rasunda, Estocolmo, transmitindo aquela final contra os suecos.

G: Você lê blogs? Quais você costuma acessar?

JJ: Leio blogs aleatoriamente. Alguns me são indicados, outros são de amigos jornalistas. Mas gosto dessa ferramenta moderna, onde todos podem exteriorizar suas idéias e projetos.

G: Como narrador, por mais que possa opinar, os comentários ficam por conta dos comentaristas, o blog é pra você um lugar de exercer seu lado comentarista?

JJ: Sobre ter um blog, sempre escrevi (para jornais, revistas, tablóides). Gosto muito de escrever. Quando comecei em rádio, 1969, comecei também em um jornal da minha cidade. E à partir disso, nunca parei. Comentar é muito legal, embora provoque discussões e divergências, obviamente. Meu lado “comentarista”é exposto no meu blog e em jornais que ainda colaboro.

G: Qual a diferença, pra você, entre o relacionamento com os leitores do blog e com os telespectadores?

JJ: Não vejo diferenças entre os comentários dos leitores de blog e telespectadores. No fundo, são todos fãs do esporte e têm suas opiniões próprias. Mas acho também que as divergências devem ser respeitosas. As discussões são de caráter filosófico, e sem guerras pessoais. Também pelo fato de o futebol ser apenas um esporte. Há muitas coisas mais importantes que o futebol para se discutir.

G: Como narrador, você acredita que precisa ser ainda mais isento que qualquer outro jornalista?

JJ: Todos os que trabalham jornalisticamente no esporte precisam ter isenção. É uma questão de respeito aos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. E dá para ser isento. Basta a conscientização e o exercício desse item. Narrador, comentarista, repórter, colunista, todos têm a obrigação de analisar friamente os fatos.

G: Você é a favor de revelar seu clube do coração? Qual o seu?

JJ: Não acho necessário revelar o clube do coração. E em caso de se revelar, o comunicador sempre estará na mira da suspeição sobre um comentário ou colocação. Não vejo necessidade disto, também.

G: Você consegue ser imparcial?

JJ: Acredito que eu tenha sucesso no meu intento de ser isento, pois quantas vezes já fui criticado por torcedores do time pelo qual tenho simpatia.

G: muitos narradores defendem o “estilo Galvão Bueno”, ufanista e parcial para o lado brasileiro. Outros, preferem dizer que narram todos os gols da mesma maneira. Qual o “estilo Jota Junior”?

JJ: Escrevi em resposta anterior que gosto de locutor que respeita as imagens. Que não queria ser mais importante do que elas. O espetáculo é por si próprio o alvo das atenções. O comunicador é apenas um complemento do que está sendo visto. Ele apóia o telespectador nas informações, na identificação dos atletas e caminha com as emoções apresentadas. Eu, como telespectador, não gosto de narrador que queira ser mais importante do que aquilo que está sendo mostrado.

G: Quais suas lembranças da época de Geraldino?

JJ: Não fui um Geraldino muito fanático. Gostava mais de jogar do que de assistir futebol. Num estádio não me sinto muito à vontade em meio à multidão. Ficava longe de tumultos e de aglomerações.

G: Você fez parte da geração “Bandeirantes, o canal do esporte”, como foi fazer parte da equipe que ajudou a popularizar muitos esportes pelo país? Qual a importância daquele momento para a sua carreira e para o esporte brasileiro?

JJ: Passados 10 anos do fim do Show do Esporte, ainda sinto a repercussão daquela estupenda fase da Band. Sou muito reconhecido ainda por ter participado da equipe de Luciano do Valle. Me valorizou muito. Aprendi como profissional e como pessoa. Foi uma época mágica de nossas vidas. Éramos unidos fortemente. Valeu e muito.

– – –

Autor do post:
Rodrigo Ferreira

Deixe seu comentário

(Obrigatório)
(Obrigatório, Não será publicado)
Notificar por e-mail

5 Comentários

  • Felipe Martins Campbell

    Cara, sensacional. Deu até saudade do futebol-fraldinha às 11h da manhã, do Gol Grande Momento do Esporte, dos compactos após às 18h, do Elias Junior e da Elis Marina, e sobretudo da segunda-feira de futebol carioca com Januario, Gerson e Addison Coutinho, direto do estádio das Laranjeiras. Bons tempos!!!

    • Rafael Fontenelle

      Muito bom!!!! Senti muita saudade.. e olha que não vivi toda epoca de ouro dessa turma.

      • Rodrigo Borges

        Bem legal mesmo a entrevista! =)

        • addison coutinho

          O Jotinha é um dos caras mais legais e competentes do meio. Tenho muito orgulho de ter trabalhado com ele. É simples e amigo.O Jota talvez não lembre uma vez quando fui renovar um contrato com a Band fiquei mais de meia hora com ele no telefone, conversando sobre o que seria melhor para mim na época.

          • Alex Cordeiro

            Muito legal a entrevista, saudades mesmo, do Canal do Esporte, do Verao Vivo e do Esporte Total. Eu curti muito esta epoca do final dos anos 80 e inicio dos anos 90, quando entrei na faculdade. A Band tinha muito comercial e merchandising, 0800 etc…, mas compensava, a equipe era muito boa, ate hoje me lembro da cobertura do Luciano do Valle na NBA ( epoca de M.Jordan nos Bulls ) e das Olimpiadas de Inverno com Alvaro Jose ( episodio Tonya Harding X Nancy Kerrigan ).
            Eu assistia tudo quanto era esporte e as vezes meus amigos reclamavam : Voce e’ louco?
            01 Abs ao Jota e a toda equipe, Parabens.