Nem tão cor de rosa assim

Algumas semanas atrás, o mundo se surpreendeu com uma punição à torcida do Fenerbahce, muito mais pela forma do que pela própria punição – algo comum por lá quando o pessoal não se comporta. O Fener deveria mandar 2 partidas em casa sem público, mas o governo local foi criativo e abriu espaço para mulheres e crianças, na velha estratégia de quem pula do barco primeiro quando a coisa tá feia. Foi uma festança só.

O negócio deu tão certo por lá que a Federação Turca de Futebol vai disponibilizar ingressos gratuitos para mulheres e crianças a fim de colaborar para a redução da violência nos estádios. Este universo tão bonito de princesas, pôneis, unicórnios e casas feitas de doces é perfeito o bastante para ser totalmente avesso a eventuais problematizações, certo? Bem, você já sabe a resposta.

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Supriya Nair é uma jornalista indiana fanática pelo Milan, que escreve para o The Run of Play e em seu próprio blog, o President Blink-Blink. O último artigo dela no Run of Play comenta os acontecimentos na Turquia. Segundo ela, não são as mulheres e crianças que vão resolver a parada. E que ela, fosse torcedora do Fenerbahce, sentiria-se ultrajada a ser convidada a participar de uma punição ao seu próprio time – quase como um prêmio de consolação. O título do texto, inclusive, é algo como “Arco-íris no céu à noite” – uma referência irônica à capacidade/responsabilidade impossível que foi conferida às mulheres de conseguir acabar com a violência nos estádios.

Mas isso não quer dizer que ela não reconheça os benefícios de uma torcida feminina no estádio, ainda que ironize Ian Holloway e sua matéria no The Independent. A questão é que, com essas ações, as coisas não vão realmente mudar. O futebol continua sendo machista e potencialmente perigoso por causa das massas de torcedores mal educados.

Ao longo do artigo, Nair devaneia sobre o desejo de se tornar presidente do Milan. E passa por uma série de pensamentos sobre como melhorar as condições e acesso das mulheres aos estádios e ao futebol em si. Ainda que eu discorde de alguns pontos da Supriya Nair – por exemplo, entendo que a punição não foi diretamente ao time, mas à torcida -, ler o seu texto foi muito bom para abrir a cabeça sobre o tema. Chamei essa realidade de universo de unicórnios, porque, a princípio, é isso que ela parece mesmo. Mas só aos meus olhos, porque não me afeta enquanto homem da mesma forma que afeta uma mulher.

Não me posiciono como feminista ou defensor dos direitos femininos. Imagino que se fizesse isso, poderia ser até considerado paternalista em relação à causa – e esse é um problema de que não preciso no momento. Mas acho importante para a classe masculina conhecer a Supriya e suas ideias. Afinal, sendo homem, para que você precisaria de outra visão masculina sobre o tema?

Autor do post:
Rodrigo Borges

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